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Escavação arqueológica

Por Cesar Castanha

Em algum momento de Cinema Novo, Joaquim Pedro de Andrade comenta sobre o filme O padre a moça (1965), falando brevemente de suas questões formais (o pouco movimento e o “enquadramento preso”). Logo depois, é apresentada uma sequência do filme que rapidamente se encerra, dando lugar a um registro da sala de montagem do mesmo filme, onde Andrade dá orientações ao técnico de montagem.

Eu não conhecia O padre e a moça, mas alguma coisa na sequência apresentada e também na própria declaração de Andrade de que o filme o irritava atrairam-me imensamente. Foi um dos breves momentos (ainda que o mais longo entre eles) em que Cinema novo me comoveu, em que o filme foi para mim algo além de uma base de dados do movimento. Mas esse momento, como todos os outros, foi abruptamente encerrado, e substituído por outro vagamente conectado ao anterior, e minha aproximação com o filme foi, mais uma vez, interrompida.

O Cinema Novo é, ainda hoje, a principal referência de cinema autoral brasileiro, um forte movimento de construção de uma identidade cinematográfica e um orgulho nacional. E o filme de Eryk Rocha é por si mesmo uma evidência disso. Costurando cenas de filmes brasileiros lançados até o fim da década de 1960, intercalando com depoimentos, entrevistas e cenas de bastidores, Rocha constrói um monumento antropológico ao Cinema Novo.

Costuradas, as imagens se enchem de valor histórico e convidam aqueles que veem o filme a se aproximar delas pelo mesmo viés, ou seja, a buscar conhecimento histórico através delas. O principal problema de historicizar o cinema, ou a arte de forma geral, é o risco de percebê-la finalizada, encerrada como algo do passado. E o tom do filme é justamente o de uma grande escavação arqueológica, em que tudo é uma deslumbrante descoberta sobre nossa cultura. Nesse sentido, ele é até bastante semelhante a alguns filmes do próprio Cinema Novo — aqueles mais focados em revelar aspectos da cultura nacional, com falsa ironia.

A ausência do cinema nacional contemporâneo — ou mesmo de comentários contemporâneos — enfatiza ainda mais o tom arqueológico do filme, que, imagino, deve se orgulhar do seu fechamento dentro do passado, imaculado pelo julgamento do presente. Mas julgar o passado com padrões do próprio passado é uma armadilha retórica da História. Nessa tentativa, quase sempre nos deixamos alienar pelos objetos encontrados na escavação; fechando os olhos para o que está na superfície ou, principalmente, para o que está fora do alcance de mãos escavadoras.

Eventualmente, no entanto, Cinema Novo abre o caminho para ser subvertido, convidando-nos para fora da base de dados e em direção a uma aventura na imagem resgatada. Além disso, há quem se comova diante do mosaico. Pessoalmente, gostaria de tê-lo como uma obra pioneira do cinema virtual, que abrisse links para outros filmes e envolvesse-nos num labirinto que tivesse, como fim inalcançável, a constelação completa do cinema brasileiro.

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