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João Pedro Rodrigues e as aves que tudo veem

Por Aisha Rahim

Um recorte de memória: a silhueta canina, à contra-luz, no primeiro plano de O fantasma (2000). Dezesseis anos depois, nada nos parece ao acaso naquele vulto de quatro patas com que João Pedro Rodrigues dava início ao seu primeiro longa-metragem, e que augurava o sombrio confronto entre desejo e sentimentalidade na personagem de Sérgio, um jovem em transição para a fase adulta, cuja transformação (ou metamorfose) parecia explicar-se menos por palavras e melhor por imagens, mas era também o prenúncio de uma filmografia assombrada pela fronteira entre o humano e o animal.

Em O ornitólogo, quinto longa do realizador português, obra com que venceu o prêmio mais importante do seu percurso – o Leopardo de melhor diretor na 69ª edição do Festival de Locarno –, os mesmos elementos surgem na paisagem do Douro transmontano, no norte de Portugal. Seguimos um ornitólogo, com a mesma doçura ambivalente de James Stewart nos westerns de Anthony Mann, de binóculo em riste à procura de abutres-do-egito e cegonhas negras. Não sabemos quem procura quem, na verdade, quando às tantas parece ser aos pássaros que cabe a visão total do jogo; há até um mocho (pássaro semelhante a uma coruja) capaz de perscrutar o escuro do cinema e ver na personagem principal o reflexo do cineasta.

O que é certo é que Rodrigues vem aqui multiplicar as metamorfoses – imaginem que o ornitólogo poderia ser também Santo Antônio, o frade franciscano do século XIII –, numa aventura hagiográfica que levanta pelo caminho vários dos “fetiches” do cineasta, como a paixão pelos pássaros vinda da infância, o mesmo santo que já intitulara o curta Manhã de Santo Antônio, as peregrinas chinesas que parecem piscar o olho aos “filmes asiáticos” feitos por Rodrigues em parceria com Guerra da Mata… Mesmo se nãoestamos convencidos da absoluta consistência desta abordagem enviesada sobre a figura do santo padroeiro, é certo que Rodrigues parece acreditar nas beatitudes da ilusão cinematográfica.

E se chega a haver fusão química entre elementos tão díspares, não lhe será por certo alheia a assinatura de Rui Poças na direcção de fotografia (com quem Rodrigues já colaborara em filmes como O fantasma e Odete). É ele que nos atrai, em CinemaScope, para esta peregrinação entre o sagrado e o profano, entre crenças e mitos, delírios e pesadelos, naturezas vivas e mortas.

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