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Sexualidade e vampirismo

Por Sabrina D. Marques

Fome de viver (The Hunger, 1983) é um desses filmes que precisam do futuro. A pretensão comercial de Tony Scott satura esta sua primeira longa-metragem e o resultado é um produto esquemático que é tão filho da sua época que, à sua estreia, lhe falha redondamente. Constituindo-se como um case-study para o quão imprevisível pode ser o sucesso comercial, Fome de viveré o argumento acabado de como um filme não é uma soma calculável de variáveis e está muito para lá das stars que reúne. A dream-team combina Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon num drama erótico entre belos vampiros que se desenrola num estilizado submundo urbano, envolto na soturnidade dos ambientes pós-apocalípticos do irmão Ridley Scott. O goth-rock dos anos 80 surge protagonizado pelos famosos Bauhaus que, tanto na sequência inicial como nos créditos, repetem o tema Bela Lugosi’s dead como quem incita à necessidade de uma renovação pós-Lugosi do vampiro. Aqui, as figuras femininas são as mais fatais das femmes fatales: descritas num allure sexualmente ambíguo recordam-nos, entre o erotismo e o terror, da associação estreita entre vampirismo e lesbianismo previamente ensaiada por filmes como Et mourir de plaisir (Roger Vadim, 1960) ou Vampyros lesbos (Jess Franco, 1970). Pela dimensão hollywoodesca da adaptação, seria o Drácula de Coppola (1992) a instalar no imaginário comum a figura da vampira-lésbica, hipnotizante criatura de um desejo exponenciado.

Na sala a seguir, encontramos Bela Lugosi a viver na pele do conde Drácula de Tod Browning (1931), o vampiro dos vampiros. Se a sede de sangue descreve a monstruosa fusão animal-homem que está na génese do vampiro, simultaneamente alude ao descontrolo racional do homem face aos seus insaciáveis apetites corpóreos. Através dos seus vários retratos, o mais sedutor dos anfitriões surge acompanhado por atraentes vampiras, simultaneamente mostrando e deixando adivinhar as práticas extremas da sua clausura. Seja num castelo na Transilvânia ou num clube nocturno marginal: as criaturas da noite saem para partilhar o sangue e o sexo na liberdade da clandestinidade.

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