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Viver em NY hoje, segundo Ira Sachs

Por Cesar Castanha

A cidade de Nova York tem juntado pelo menos desde os anos 1970 um conjunto de diretores que se especializou em filmá-la. Cada um a seu modo, refletindo a diversidade do melting pot, vários cineastas foram e ainda são bem-sucedidos em apresentar a sensibilidade da experiência nova-iorquinos. Ira Sachs se consolidou como um desses cineastas.

Em Melhores amigos, seu filme mais recente, Sachs se aproxima da cidade a partir de um conflito urbano dos mais comuns e universais, aquele entre proprietário e inquilino. A estrutura narrativa e de cena em que o diretor desenvolve esse conflito, no entanto, possibilita que se revele uma série de problemáticas da grande cidade. Problemáticas sociais, sem dúvida, mas também relativas ao afeto pela cidade e às maneiras particulares pelas quais essas expressões de afeto se manifestam.

Nesse sentido, Melhores amigos insiste no ponto do seu filme anterior, O amor é estranho, que também trata do direito à moradia ou ao espaço em que se trabalha. E, embora o mais novo tenda a ser um pouco condescendente com a maneira como o sistema capitalista define as regras da cidade — algo que os filmes do Sachs geralmente não são —, é formidável que o diretor associe essa questão também ao direito pela cidade, por viver e experimentar a cidade.

E é disso, além da própria amizade, que os dois jovens personagens a quem o título em português se refere estão em busca. A câmera de Sachs tem uma certa maneira de acompanhá-los em seus passeios pelas ruas e praças e de volta para a rua onde vivem ou para suas próprias casas, reconhecendo que esses espaços são também parte da cidade e sujeitos à ocupação e à vivência das pessoas que fazem parte dela.

Compreender a cidade que está dentro de casa e a família que se expande para as ruas da cidade é uma das mais admiráveis qualidades de Sachs. E é também dessa compreensão, acredito, que vem sua habilidade de contar pequenas histórias familiares da classe média nova-iorquina. É esse aspecto que faz dele, a meu ver, o mais próximo que temos no ocidente hoje do estilo ainda inimitável de Yasujiro Ozu.

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