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Ditadura em confinamento

Por Álvaro Zeini

            Numa das melhores cenas de Deslembro, Joana, órfã de um ex-guerrilheiro assassinado pelo regime militar, tenta demover o padrasto da ideia de engajar-se na luta armada. Ela solta: “Dane-se a luta de classes”. A voz de um vizinho a apoia, mas ela retruca essa intromissão com um “cala a boca, fascista”. A tréplica vem com um sonoro “vai pra Cuba!”.

            O filme de Flávia Castro acontece em 1979, após a ditadura anistiar os exilados políticos, mas é fácil tropeçar num diálogo como este no Brasil de 2018. Talvez o próprio título explique o fato de que diálogos como este voltem a nos assombrar: o prefixo antes do verbo e a conjugação não sugerem um mero esquecimento, mas um ato de esquecer deliberadamente para crer numa outra história. A ditadura militar é, hoje, uma página em progressivo deslembramento, processo que, provavelmente, advém do apagamento institucional dado sobre essa página da nossa História.

            Esse apagamento gera, quando não uma incompreensão, uma problemática parcialidade sobre o tema, que se abate sobre a própria representação da ditadura no cinema pós-retomada. Deslembro inclui-se nisso. Primeiro porque dá sensação de querer abarcar toda a complexidade do contexto histórico num roteiro inchado e esquemático. Não é à toa que os melhores momentos são aqueles em que a ditadura aparece de forma mais lateral, produzindo cenas porosas, como a que Joana e Leon discutem o fato de terem pais diferentes, aquela em que neta e avó fumam juntas, ou uma outra, em que pai e filho cantam Rita Lee.

            Segundo porque o plot do não reconhecimento da cultura e do país fica em suspenso. Joana não desconhece o Rio de Janeiro porque quase não se vê a cidade; pelo contrário, vê-se, de novo – como em Cabra-cega, Hoje, O que é isso companheiro? – o filme de confinamento, o filme de apartamento, o filme-aparelho.

            Na outra ponta da première, o curta Mais triste que chuva num recreio de colégio começa num movimento de câmera que emerge da terra para encontrar um corpo, disforme por conta da falta de foco. Esse corpo logo é contraposto à imagem de uma mosca. E, então, novamente a câmera se eleva a partir do chão, e encontra não mais o corpo, mas o Maracanã em plena reforma superfaturada. Na camada sonora, as falas de arquivo dão forma ao discurso principal: após trechos da famigerada sessão do impeachment de Dilma Rousseff, ouve-se a fala de Michel Temer sobre a reforma trabalhista alternar-se com a narração do sete a um na Copa do Mundo. Essa analogia entre o discurso aparentemente progressista e a goleada concretiza a ideia de que, no Brasil, o progresso provém da ordem, mas a ordem recaí sobretudo sobre os mais pobres, “homens-moscas” constantemente vistos e tratados como insetos. Da saída das “raízes do Brasil”, a câmera encontra esse corpo e sobre ele, o concreto. O progresso em ordem, no lombo do brasileiro.

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