Ir para conteúdo

Ao lado dos trabalhadores

Por Raquel Morais

Chão, de Camila Freitas, acompanha a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, especificamente o acampamento Leonir Orback, em Santa Helena, Goiás. Na tradição do cinema militante, o filme quer ser instrumento de politização e mudança, oferecendo ao MST uma plataforma que lhe dê visibilidade nacional e internacional. Posiciona-se do lado dos trabalhadores, documentando as suas rotinas e os momentos em que falam sobre a sua luta, permitindo conhecer a fundo esta comunidade, que Freitas acompanhou entre 2014 e 2018.

A abordagem da realizadora é microscópica. Foca-se apenas num acampamento e em dois dos seus elementos, P.C. e a matriarca do grupo, a quem todos chamam de Vó, que agregam a narrativa. Oferece assim uma face à luta, combatendo o que o inimigo – os latifundiários, os seus representantes legais e os media – tenta fazer: descaracterizá-la, torná-la anónima e ameaçadora. Estas personagens têm sonhos e projectos, que conhecemos à medida que a paisagem nos é mostrada, em planos que não são meramente contemplativos, apesar da sua placidez. Neles, a paisagem é agente, o chão o segundo protagonista do filme.

Natural de Goiás, Freitas conhece há muito o MST e já se tinha debruçado sobre o ataque da agroindústria contra as comunidades rurais, na sua curta Passarim (2003). Mas ainda que acompanhe de forma próxima e consistente o objecto da sua câmara, a realizadora nunca parece ser, realmente, um membro do grupo. Isto leva-nos a questionar quais são as reais condições de existência de um cinema militante quando o cineasta e os trabalhadores caminham ainda lado a lado, quando, entre eles, persiste uma distância.

Se Chão é bem conseguido na enunciação daquela realidade, teria sido interessante fazer do filme lugar de diálogo que integrasse a própria realizadora, deixando entrever o processo de aproximação entre ela e o MST. Isso permitiria uma maior proximidade ao movimento, nomeadamente às suas dificuldades e contradições, que nunca vemos. Uma construção menos linear, que problematizasse dinâmicas internas faria do filme um instrumento de efeito mais duradouro nas mãos dos seus protagonistas.

Categorias

Sem categoria

Tags

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: