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Presente que na verdade é passado

Por Taiani Mendes

O cheiro do sexo, a catinga da praia, o tubarão-melancia. Está no ar o incômodo de Piedade, novo filme de Cláudio Assis. O que nem sempre se vê, mas se sente. Coisas como poder e saudade, que inclusive batiza a praia que é um dos principais cenários do longa. O imaterial que se alastra, como vídeos de protesto na internet, vírus, segredos familiares. Vidas se cruzam e diferentes maneiras de experimentar a existência se apresentam: a contemplação nostálgica, a vigilância voyeur, a imersão no virtual. Há também os ativistas que querem causar impacto e reação e as testemunhas envolvidas, mas nem tanto, que apenas estão ali. Um pouco como o espectador, enquanto os mobilizadores refletem o realizador, encontrado também no vilão novelesco (Matheus Nachtergaele) que dispara a fofocaiada e sabe circular, detém informações privilegiadas e em todo lugar está.

Está no ar o incômodo de Piedade no sentido em que a trama jamais decola de fato e não se entende muito bem o porquê. Não dá liga. Entre perguntas retóricas (“Que porra fizeram com nossa cidade?”) e um mar de metáforas, é engraçado ouvir no meio do discurso da personagem mais reacinha o que talvez seja a grande verdade do filme: “homem faz o que quer”. Às mulheres de Piedade cabem a ignorância (do destino do filho, da intimidade do filho, da realidade do país) e a espera, enquanto enfrentam tubarões na água, na terra e na cama exclusivamente seus herdeiros e irmãos. É a anciã sociedade patriarcal trazendo junto o ultrapassado hábito de ir ao cinema consumir pornografia, o velho inimigo petrolífero, o antigo hino de resistência de Sérgio Ricardo, a disseminada visão da novíssima geração como alienada pela tecnologia, o presente que na verdade é passado, um desenho de como era a Saudade em outro tempo.

Está no ar o incômodo de Piedade por conta do cheiro de naftalina, de filme de ontem, de figurinhas repetidas, de comida requentada. Homem não presta, cabeçada no cu, tubarões existem e a paulada foi fraca.

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