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Resistência genérica

Por Adriano Garrett

Piedade traz em seu início a imagem de um vidro sendo desembaçado até se tornar límpido. Tal plano remete a uma construção narrativa que se revelará pouco afeita às nuances ou às zonas de incertezas, algo que está menos relacionado à presença de um antagonismo nítido (o avanço de uma construtora sobre uma localidade no litoral pernambucano) do que a uma dificuldade de estabelecer pontos fundantes de sua trama e a um movimento constante de esvaziamento de suas questões.

Uma ideia central como a do perigo relativo ao avanço do capital urbano sobre Piedade, por exemplo, pouco se materializa para além dos diálogos expositivos. Há uma tentativa nesse sentido através dos planos contrastando a pequenez da praia com o gigantismo de máquinas portuárias, mas a recorrência dessas imagens tende mais a um afrouxamento do que a um acúmulo de tensão.

Sempre que tem que optar entre o atrito e o comodismo, o filme escolhe o último caminho. No retrato da juventude, por exemplo, o lampejo de rebeldia visto na sequência dos surfistas mascarados não consegue perdurar, seja por um desinteresse do roteiro, seja pela facilidade de combate a um inimigo pouco palpável – a quem se confronta atacando placas.

Nesse contexto, a ideia do mar como local hostil vai da concretude (o risco coletivo de um protesto) à abstração (o desejo pessoal de nadar ali), contrapondo as figuras dos netos Ramsés, criança vinda do núcleo novo rico da família, e Marlon, que se entende como jovem idealista.

Enquanto a obsessão do primeiro por um óculos de realidade virtual carrega uma crítica difusa ao individualismo e à virtualidade das novas gerações, o discurso genérico sobre resistência que o segundo cria gera uma adesão sem ressalvas por parte do filme. O vazio de suas palavras de efeito (“tem que resistir mesmo”) nunca é tensionado; pelo contrário, é reafirmado no fim através dos dizeres de uma pichação: Mensagem para o Futuro.Acreditando demais em uma legitimação prévia (do tema, do elenco), Piedade se enxerga como vanguarda, mas surge datado já no presente.

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