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A mulher da vida fácil

Por Taiani Mendes

“Meu salvador!” é como Alice Ferrand (Emilie Piponnier) recebe o marido ao fim do dia, cheia de alívio e confiança. Ele é carinhoso e declama poesia, mas há um ano gasta todo o dinheiro da família com prostitutas de luxo. Ela não faz ideia e a descoberta é traumática e revolucionária. A mulher que usava cartão sem nunca se dar ao trabalho de conferir limites ou saldos toma um choque de realidade e corre o risco de perder até o teto. O tapete dos privilégios é puxado, mas logo substituído por outro tapete, mágico, voador, pois a diretora Josephine Mackerras retrata a prostituição de luxo – nova carreira de Alice – de modo tão pueril que se torna impossível acolher a trama senão pelo prisma da fabulação.

Era uma vez então uma mulher que é sacaneada pelo parceiro, investigando onde foram parar suas economias acaba convidada a entrar no ramo do meretrício e nele faz uma grande amiga, que é ao mesmo tempo mentora e leal companheira. Nesse mercado dominado por mulheres, Alice aprende que é ela quem detém o controle e o exerce diariamente sobre homens fragilizados, mas nem por isso menos apavorantes – pelo contrário. Muito dinheiro é acumulado de forma rápida e tudo parece perfeito até a noite em que ela não tem com quem deixar o filho para ir trabalhar.

Bastante claro, literalmente, em termos de fotografia, A Vida de Alice ignora meio termo na polarização dos gêneros e aproxima-se de um guia ilustrado do feminismo sexo-positivo do século XX, apontando o ideal (pai tomando conta do filho, irmandade feminina) e o inaceitável (sogra defendendo genro infiel, justiça machista). A tinta da leveza que prioriza o humor, disfarça o sexo, despreza a violência e ignora a potencial bissexualidade, no entanto, ao mesmo tempo em que deixa o filme fácil para todos os públicos, representa certo conservadorismo que não combina com o grito de liberdade intencionado.

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