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De quem é esse Theatro?

Por Raquel Morais

Ressaca, de Vincent Rimbaux e Patrizia Landi, constrói-se em paralelo com o corpo que retrata, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. A sua estrutura é a de um espectáculo: prólogo, cinco actos, epílogo. A fotografia do filme, feita em preto e branco, mimetiza de modo justo a austeridade que marca o presente da instituição. Em plena recessão económica que pesa sobre o Brasil em 2017 e diante dos decorrentes cortes de financiamento operados pelo governo do Estado do Rio de Janeiro, a companhia está em estado de crise, com salários em atraso e poucas perspectivas de melhoramento.

Ressaca faz do Theatro símbolo daquilo que terá sido uma época áurea do Brasil, tempo da confiança na ordem e no progresso – aquando da construção do edifício no início do século XX. A decadência da instituição é, no interior da lógica do filme, o sinal evidente do declínio económico e da tensão política do actual Brasil. O filme é uma elegia, que procura descrever o Theatro como corpo coeso de importância e qualidade inquestionáveis. Enquanto proposta formal, é rico e bem conseguido, a sua consistência estrutural e depuração visual são valiosas.

No entanto, propor o Theatro como alegoria do Brasil acaba por revelar uma série de aspectos comprometedores. O Theatro Municipal, de influência europeia, é herança indirecta do passado colonial e de difícil acesso à classe popular brasileira, evidenciando a abissal diferença de classe no Brasil. Os três protagonistas do filme – Márcia, Filipe e João – dão, de forma que talvez os realizadores não tenham previsto, conta disso.

A primeira bailarina, Márcia, abandona a companhia em decadência, continuando a desenvolver a sua carreira na velha Europa – tem as condições para mudar de vida; Filipe, primeiro bailarino, que se vê na necessidade de se tornar motorista de Uber, profere as palavras mais reveladoras da película, admitindo que nunca pensou que a crise chegasse até nós – nós significa aqui aqueles a quem a cultura frequentemente pertence. João, arrumador de sala, ama o Theatro, onde trabalha há décadas, mas mora no morro e dificilmente se poderá dizer que o Theatro lhe pertence, a não ser num universo de boas intenções em que aquele espaço lhe é concedido, exclusivamente, como lugar de sonho.

Se a pergunta que o filme nos quer deixar é quais as possibilidades de continuação quando se vive a ressaca de uma tão grande desilusão política, talvez o passo atrás necessário seja rever quais foram as condições estruturais dessa mesma ressaca.

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