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Filme vivo-morto

Por Adriano Garrett

Zombi Child, do francês Bertrand Bonello, deixou em mim uma dupla impressão: ao mesmo tempo que se tornou uma das melhores experiências que tive em uma sala de cinema este ano, trouxe certa decepção pelo caminho tomado no desfecho.

A obra começa com um prólogo passado no Haiti dos anos 60 – no qual um homem é trazido de volta do mundo dos mortos – e depois centra sua trama no cotidiano de um colégio de elite de Paris nos dias atuais, onde a jovem haitiana Mélissa passa a integrar um grupo restrito de amigas brancas.

Nesse núcleo, o maior e mais raro mérito é a maneira com a qual a branquitude é racializada. Um exemplo: a panorâmica que apresenta o ambiente escolar faz um movimento que depois volta, remetendo a uma recusa a um entendimento histórico linear e unívoco –  movimento coerente com a fala do professor sobre a Revolução Francesa. A sequência deixa de trazer uma leitura simples – a apresentação da única aluna negra do colégio – e a expande – com pessoas brancas tendo que lidar com o fato de não serem universais. Tal ideia retorna e é complexificada em vários outros momentos (a busca no Google, a reação diante de um discurso confrontador ou de um som nunca ouvido).

É graças a esse movimento autoconsciente constante que o filme consegue a proeza de apresentar uma fala problemática como aquela sobre hierarquias de sofrimento, dita por Fanny (amiga de Mélissa), sem criar uma adesão àquele discurso – pois, até aquele momento, a irresponsabilidade é da personagem, não da obra.

O problema da cena está do outro lado, na falta de base dramática para que a tia de Mélissa – antes apresentada como uma professora ciente de seu papel junto à comunidade haitiana – resolvesse aceitar o pedido egóico de Fanny por um ritual que recuperasse seu amor não correspondido.

Daí para o final, o filme perde força e passa a caminhar como morto-vivo. Vale destacar outras duas opções questionáveis: o modo como se encena a possessão (e o confronto que isso gera com a já citada autoconsciência do filme) e o aparecimento de letreiros que vinculam a trama a fatos reais (um gesto que busca uma legitimação extra-fílmica às escolhas do desfecho).

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