Ir para conteúdo

Brasil: corpos de baile

Por Raquel Morais

“A gente está no no meio do caos, não dá para esticar a ala da maneira que a gente pensou, da maneira que a gente sonhou esse tempo todo. Mas nós estamos juntas”. Com estas palavras de Camila Xavier, presidente da ala das baianas da escola de samba Alegria da Zona Sul, começa e acaba 30 dias – Um carnaval entre a alegria e a desilusão (foto), realizado por Valmir Moratelli, numa repetição que anuncia a circularidade do tempo – cada ano trará renovação do festejo, mesmo que a renovação não seja fácil.

As dificuldades vividas pela escola são semelhantes às que vários corpos artísticos e instituições culturais do Rio de Janeiro têm experienciado nos últimos anos, em consequência de cortes orçamentais executados por iniciativa da Presidência da República, do Governo do Estado, da Prefeitura da cidade. Este ano, o Festival do Rio perdeu alguns dos seus principais patrocinadores e esteve em risco de não acontecer. À semelhança de outros festivais de cinema brasileiros que deixaram de receber dinheiros públicos, para o Festival do Rio a ameaça dos cortes já tinha ressoado na edição de 2018, mas este ano foi suficientemente forte para adiar em dois meses a sua realização.

30 dias… é um dos filmes que integram a sua programação, como parte da Première Brasil. Essa mostra da produção nacional conta este ano com um número maior de filmes do que é habitual, como forma que a direcção encontrou de se afirmar contra a diminuição de recursos. Essa situação não é exclusiva ao circuito dos festivais, mas marca o actual contexto do audiovisual no país, como se ouve dentro das salas e entre sessões por estes dias. Ao reforçar a presença das criações brasileiras, a direcção do festival ecoa o incentivo que Camila Xavier dirigia às suas baianas, através da constante alusão aos seus esforços de sobrevivência: o que não nos mata torna-nos mais fortes.

Debaixo de chuva, sob holofotes de luz branca, ela congrega as mulheres do grupo antes do início do desfile, fala-lhes do sacrifício pessoal que fez para estar ali, esforço que é comum a cada elemento daquela escola, que, em 2019, contou com apenas um quarto do seu orçamento original e hoje é alvo dos ataques do prefeito da cidade, Marcelo Crivella, bispo evangélico.

Construído como contagem decrescente – trinta dias, vinte e seis, vinte, dezoito, doze, cinco, dois… – a organização do filme acompanha o tempo quotidiano, sendo feito do mesmo tipo de matéria que filma: matéria simples, sem acabamentos, o descampado onde se constroem os carros, os espaços despidos onde se ensaiam as coreografias, a noite chuvosa em que o carnaval tem lugar, espaços enquadrados em planos que se preocupam mais com preservar uma certa energia vital do que em serem perfeitos em termos formais. 

No interior do filme, a redução de financiamento é apresentada como fruto de uma intenção política direcionada – a de asfixiar manifestações de cultura popular que revelam um certo Brasil –  o Brasil pobre, o Brasil negro, o Brasil do Candomblé, Brasis que não são sobreponíveis de forma linear ou simples, mas que se relacionam de forma íntima, como os depoimentos do filme explicitam. Esses depoimentos vêm de uma série de especialistas nas raízes históricas, culturais e sociais do carnaval, bem como da boca dos seus participantes. 

A utilização da ala das baianas como porta de entrada e de saída do filme é, nesta tentativa de contextualização histórica do carnaval, simbólica. Aquela componente do desfile evoca os círculos das chamadas tias baianas que, no início do século XX, serviam de refúgio a elementos de grupos de samba que, fugindo da perseguição policial, encontravam nas tias uma forma de protecção.

Nesse sentido, 30 dias é, em termos estéticos, bem como nas estratégias através das quais se constrói, diametralmente oposto a um outro filme programado como parte da Première Brasil, na secção competitiva de documentário, um filme que se foca também no modo como uma instituição cultural sofre com restrições financeiras: Ressaca, da autoria de Patrizia Landi e Vincent Rimbaux. O filme acompanha os meses de desafio enfrentados pelo Theatro Municipal do Rio de Janeiro desde que, em 2016, começou a ver o seu orçamento drasticamente reduzido.

Ressaca retrata uma manifestação da cultura mais propriamente erudita e isso traduz-se na sua forma – filmado a preto e branco, a película procura uma depuração que conhece dos movimentos mais contidos dos bailarinos clássicos do Theatro –, secura ausente dos passos arrebatados do samba. Se em 30 dias… a água que escorre dos corpos é capturada em cores saturadas e a céu aberto, o suor e as lágrimas de Ressaca são muitas vezes captados em cenas de interior, imagens polidas construídas entre a luz e a penumbra.  

Além de partilharem temáticas semelhantes, há outro importante traço comum entre os dois filmes. Ambos acabam por se estabelecer enquanto sinédoque do Brasil e reflectem sobre o abismo actualmente existente entre sonho e realidade. Ressaca, por um lado,faz corresponder a decadência do Theatro e as diferentes formas de derrota pelas quais as suas personagens passam ao cancelamento da promessa de um Brasil próspero. Fá-lo de forma alegórica, colocando lado a lado uma queda em palco de Márcia, bailarina principal, e a morte de Marielle Franco; a morte do Sr. João e os assassinatos na favela onde ele mora; a luta dos trabalhadores do teatro e manifestações de rua com confronto policial.

30 dias, ao apresentar o carnaval enquanto manifestação central na cultura brasileira pode também ser lido como proposta de símbolo do Brasil, mas de um Brasil distinto daquele a que a tradição do Theatro Municipal remete. 30 dias… documenta uma criação colectiva de raiz popular, absolutamente fixada na comunidade que a fundou, e procura rastrear as origens dessa criação, inscrevendo-a assim num cenário mais amplo. Ressaca retrata o Theatro Municipal como corpo coeso, mas completamente isolado do espaço que directamente o cerca.

Se Ressaca seconstrói como discurso de uma classe educada para quem a ameaça à cultura começou por ser o primeiro sinal visível de um cerco político, em 30 dias… o corte na cultura é apenas um dos traços da opressão exercida há anos pela classe política, representante de um certo status quo associado à branquitude. Um problema novo para o Theatro Municipal é, em rigor, um problema mais antigo para a escola de samba “Alegria da Zona Sul”. Talvez por isso, as formas de reacção ao ataque sejam tão distintas no interior dos dois filmes. Se em Ressaca a revolta e a resistência são essencialmente, e apesar de vividas em conjunto, vistas a partir de perspectivas individuais, em 30 dias… o problema é muito mais apresentado enquanto experiência colectiva. O círculo que rodeia Márcia em palco antes da sua partida para outro país, onde vai continuar a sua carreira, é um círculo que vive o abandono da sua figura agregadora. A esse círculo podemos contrapor o de Carmen Xavier, que não desiste de unir o seu clã.

Nenhum dos filmes é mais fiel a uma ideia de Brasil do que o outro, porque ambos dão conta de duas realidades contidas nessa palavra maior. Ainda assim, e apesar de Ressaca terminar em nota de apoteose, com a câmara movendo-se verticalmente rumo ao céu, e de 30 dias… acabar em nota melancólica, com uma escola de samba coberta em chuva e desvalorizada no interior do grupo de acesso, talvez o segundo filme contenha um maior potencial de reacção política do que o primeiro, precisamente por procurar os seus instrumentos de resposta no interior da comunidade em que se baseia. Podemos supor que a construção de qualquer filmografia nacional depende sobretudo do recurso às especificidades do solo em que se inscreve, mais do que de matérias e formas exteriormente aprendidas.

Categorias

Sem categoria

Tags

%d blogueiros gostam disto: