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Manifesto favelado

Por Taiani Mendes

Cinelândia, Rio de Janeiro, 10 de dezembro de 2019. Apresentando no palco do cinema Odeon a equipe de Intervenção, integrante da Première Brasil Hors Concours, Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio, lembra que há 12 anos Tropa de Elite abria o evento. Em comum entre os dois longas-metragens a proposta de um olhar de dentro das forças policiais do Rio de Janeiro – no primeiro o BOPE (Batalhão de Operações Especiais Policiais), no segundo a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) –; o ex-policial Rodrigo Pimentel como um dos roteiristas; e uma certa pretensão ao apelo popular.

É bem verdade que Tropa se tornou um fenômeno muito pela forma como foi divulgado pelos camelôs – que venderam como água uma versão não finalizada da obra, vazada na internet meses antes do lançamento oficial – , além do atrativo de oferecer acesso a um grupamento cercado de mistérios e lendas, a força do Capitão Nascimento (Wagner Moura) e a adaptação da violência urbana tipicamente brasileira aos moldes do cinema de ação “cheio de tiro” hollywoodiano. O boca-a-boca, no entanto, provavelmente não teria se espalhado tanto se o filme tivesse sido lido por todos da mesma forma, ao invés de dividir opiniões entre os que o acusaram de ser fascista, os que encontraram um herói brasileiro em Nascimento e os que enxergaram uma contundente crítica social por parte do diretor José Padilha.

Intervenção, por outro lado, tem posicionamento e público-alvo bem cristalinos, prenunciado desde a fala dos produtores, do diretor Caio Cobra e do elenco antes da exibição, ressaltando que “todos somos vítimas”, “fomos ingênuos por acreditar no projeto das UPPs”, “não há direita/esquerda ou polícia/morador” e “tudo é visto acima de qualquer ideologia”, com “vamos ao filme, vamos nos divertir” encerrando a introdução com chave de ouro. Ou de chumbo, para combinar melhor com o tema.

É um filme construído especificamente para fazer sucesso com policiais, seus parentes, seus admiradores e determinada parcela da população que há uma década ainda estava dispersa, mas foi se organizando e ganhando corpo ao ponto de eleger o atual presidente do Brasil. O governo do estado do Rio de Janeiro é a força do mal que inventou a polícia pacificadora numa jogada eleitoreira, atrasa salários, não conserta os caveirões e não oferece nem mesmo uma base segura e equipada com o mínimo para que os policiais possam cumprir seu dever. Os juízes tampouco os ajudam, liberando os detidos nas audiências de custódia e transformando seus esforços em trabalho inútil e perda de tempo. A imprensa apenas ataca; os direitos humanos não olham para eles; o BOPE só é bom para seus próprios oficiais, que entram, fazem o que têm que fazer e vão embora; os traficantes são cruéis e impiedosos; e os moradores dissimulados e traiçoeiros.

Injustiçados e sob enorme stress constante, os policiais ainda são incompreendidos por familiares e precisam enfrentar ameaças dentro da própria guarnição, os oficiais corruptos e maus que resistem enquanto os bons morrem ou desistem de lutar. O esforço de vitimização envolve registros dos despreparados jovens policiais em pânico, acuados e sendo penalizados por fazer o que se espera deles. Compondo a ideia de que não há diferença entre polícia e favelado, a protagonista (vivida por Bianca Comparato) é moradora de comunidade, mas como acreditar em tal falácia quando o pacificar durante um discurso é igualado ao sobreviver, ou seja, resistir ao efeito de algo, no caso o ambiente hostil que inclui seus habitantes – os moradores? Esgotados por fazerem de um tudo menos policiar e quando policiando serem alvos fáceis, eles às vezes perdem o eixo por culpa do sistema, mas será culpa do sistema também a representação de todos os moradores como inimigos em potencial ou supostos aliados mal-agradecidos?

Pacificado, de Paxton Winters (foto), é outro título da Première Brasil Hors Concours que começa contextualizando o espectador sobre a “pacificação” (é assim, entre aspas, que aparece na cartela inicial) ocorrida em virtude dos Jogos Olímpicos de 2016. Os policiais, no entanto, são figurantes que aparecem apenas como praticantes de esculacho e alvo de zoação, pois o foco está no seio familiar de Tati (Cássia Nascimento), cujo pai é o antigo dono do morro e está prestes a sair da prisão.

Até mesmo por conta das abordagens opostas, as diferenças entre os longas obviamente são inúmeras, a mais curiosa talvez sendo o filme dirigido por um estrangeiro demonstrar maior intimidade com localidade e as pessoas do que o assinado por um brasileiro (o que pode ser explicado pelo fato de Paxton ter vivido no Morro dos Prazeres por alguns anos, o usado como locação e contado com a colaboração de muitos moradores).

Mais interessante, no entanto, é notar as semelhanças: a birracialidade dos núcleos principais; a participação feminina levando humanidade à UPP; o homem experiente buscando evitar de todas as formas o confronto; o policial se recusando a levar o criminoso para a delegacia (a justificativa aqui é a recusa em levar uma bandida para ter “vidão” na prisão, mais plausível do que o argumento usado em Intervenção, afinal relatório do Instituto de Defesa do Direito de Defesa revelou em agosto deste ano que 57% dos presos continuam sendo enviados ao sistema prisional pela Justiça por meio da prisão preventiva após audiências de custódia); o uso de registros amadores e/ou arquivos jornalísticos da ocupação do exército nas comunidades; os desfechos secos e desesperançosos; e especialmente os moradores flagrados frequentemente numa situação de dependência e buscando a quem recorrer – em Intervenção as crianças sendo alimentadas, supervisionadas e auxiliadas nos estudos pelos policiais, em Pacificado as pessoas pedindo o tempo todo ao velho chefe do tráfico para mediar seus conflitos e problemas pessoais.

Consternação é o que gera a percepção da insistência na representação do morador de comunidade carente, especificamente das favelas cariocas, na chave da subalternidade, da necessidade da intromissão do outro em seus dilemas, da presença empolgada na fila para pegar carga de caminhões roubados (cena presente em ambos os longas), da permanência à sombra dos protagonistas armados ou diretamente ligados a personagens que têm armas. Realmente seria otimista demais esperar encontrar em duas grandes produções com claras ambições comerciais algo muito distante do lugar-comum, porém, como um festival que se denomina do Rio não é capaz de apresentar outras visões ficcionais dessa ampla população que constitui a cidade que o abriga? Onde estão os filmes de favela, não os favela movies?

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