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escurecer o pensamento, experimentar pela linguagem

VIVXS (C Shapira, R E D’Alva, T Lohmann, 2021)

Por Ana Júlia Silvino

Ancoradas em uma base sonora ressonante do oceano atlântico, vozes sobrepostas localizam o contexto histórico – Rio de Janeiro, Brasil, 2018, no último país das américas a abolir a escravidão, um encontro de poetas, no maior porto escravagista da história da humanidade. Esse primeiro gesto sonoro já nos mostra a intenção poética de narrar sobre o atlântico negro e sugere que as questões abordadas na fala – a cultura e a violência na diáspora – reverberam para além do território e contexto histórico descritos. Com a associação entre momentos performáticos e documentais, VIVXS parece querer lançar uma proposição sobre o vigor da arte negra, mas se perde no meio do caminho, na intenção em universalizar as questões políticas e em dar conta do ser negro pelos slogans.

Ainda no início da narrativa, dois corpos negros instigam um movimento por uma finalidade. Sem música, dançam pelas ruas até se encontrarem. Quando finalmente se encontram, o choque entre essas duas corporeidades produz uma cadência rítmica e outras vozes surgem desse encontro. A performance das vozes sobrepostas da cena inicial se transmuta em cenas documentais de poetas recitando suas poesias. De certa forma, a montagem reitera a função do ritmo – que é representado visualmente como um desenho de uma roda que gira – como aquilo que designa um movimento que se repete. No entanto, ainda que o trabalho com o som e a montagem provoquem uma complexidade na imagem, como, por exemplo, cenas em que textos em inglês estão sendo narrados no mesmo compasso que o batuque das rodas de samba cariocas, o jogo da voz que convoca outras vozes se torna, no decorrer narrativo, cada vez mais reiterativa do seu próprio método.

O caráter experimental do filme aparece como uma tentativa de desviar das representações canônicas da diáspora negra e seus efeitos. No entanto, à medida em que a narração em voice over e as imagens dão mais informações sobre o contexto histórico-político, mais o filme se aproxima das narrativas que pretendia se afastar. Em certo sentido, o filme me parece abandonar o experimentalismo durante seu percurso e escolhe caminhar para um viés cada vez mais midiático sobre o ser negro, como na cena em que os poetas aparecem de mãos dadas ou quando um grupo de pessoas negras – algumas com os rostos pintados em referência a tradição africana, outras com suas tranças e adereços – caminham com os rostos fechados, uma espécie de referência excessiva às imagens políticas às quais os corpos negros estão frequentemente vinculados na mídia ou as estratégias de captura da beleza negra africanizada pela publicidade. A falsa promessa da representação e da visibilidade pela mídia hegemônica.

A voz que, no início, brincou com a palavra SLAM e a pronunciou pausadamente como um instrumento percussivo, jogando com a ideia de ritmo pela prosódia, mais a frente diz Black Lives Matter, dessa vez sem brincar com a pronúncia da palavra estrangeira e sem localizá-la no contexto brasileiro. O slogan, como um instrumento de propaganda política, em certa medida, reduz a palavra à sua própria superfície. VIVXS poderia ser um filme que movimenta além, se continuasse utilizando o experimentalismo como uma estratégia para suscitar imagens, mas escolhe ser comum.

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