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Notas escritas com sangue

Os primeiros soldados (Rodrigo de Oliveira, 2021)

Por Giuliana Zamprogno

Minha avó foi uma das fundadoras do banco de sangue do Estado do Espírito Santo nos anos 1980, logo no início da eclosão da AIDS. Parece impensável hoje, mas naquela época não se usavam luvas nem máscaras nos laboratórios. Assim, quando foi chamada para a chefia, ela pode finalmente botar em prática tudo o que havia aprendido na Fiocruz do Rio de Janeiro. Em especial, ela gosta de lembrar da sua felicidade estarrecida ao escrever na ficha, com a letrinha de normalista, o luxuoso pedido de “10 mil luvas de látex e não sei quantas máscaras”. Eu só soube disso, ou só comecei a despertar mais interesse em ouvir a história profissional da minha avó, na época em que Os primeiros soldados estava sendo produzido.

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Vitória não é uma cidade comum. Literalmente ilha, sua geografia parece reforçar a sensação de isolamento da capital ao que acontece no resto do país, principalmente nos atrativos e badalados estados vizinhos. Aqui, o que é urbano carrega consigo as malas da roça, e assim a vida íntima da cidade é quase sempre tracejada pelas relações do interior: onde todos os caminhos levam ao mar é também, inevitavelmente, onde todo mundo se conhece. Mas essa suposta falta de rota de fuga também é terreno para que nasça um forte senso de comunidade.

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O lurex dos anos 80 versus a cidade fechada e retraída. Nas festas da Querelle (posterior boate Eros), ou na fictícia Genet, as identidades LGBTQIA+ encontram subterfúgios à heteronormatividade na linha dos balls de Nova York. No escuro da noite, esses sujeitos estabelecem um sistema de cumplicidade em que o grito afirmativo da performance anda junto ao segredo. Tal qual na marronagem e na quilombagem, fugas, alianças e pactos de sigilo são modos de sobreviver e resistir em modo menor (Dénètem Touam Bona) que funcionam como verdadeiras estratégias de guerra.

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“Eu sabia que você também era o único…você sabe…lá de Itarana”. Local de nascimento da minha outra avó, Itarana é o município ínfimo onde Humberto (Vitor Camillo) aprendeu a demonstrar “macheza” e entonar “rapaz” sob os olhares conservadores. Eu e ele partilhamos a origem da mesma terra laranja e quente, com sua igrejinha branca e lavouras de café.

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Os primeiros soldados é um drama que sabe muito bem dosar afirmação e refúgio, se afastando das alegorias políticas escancaradas para bolar ataques incisivos e não frontais. Da mesma forma, na contramão do óbvio, Rose (Renata Carvalho) canta Gonzaguinha, e não Madonna. Uma música – “Um Homem também chora (Guerreiro Menino)” – sobre as fraturas da masculinidade, entoada por uma pessoa trans. Quando a canção pesa, Rose sabe driblar e plateia e, num improviso, faz do “não dá” um “dá pra ser”: protesto sub-reptício de virada afirmativa da vida na virada do ano. Alguns meses depois, Rose, junto a Suzano (Johnny Massaro) e Humberto, faz do refúgio no sítio uma tentativa de driblar a morte.

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A AIDS conjuga o tempo dilatado da descoberta e a consciência de finitude da vida. Diante do que nada se sabia, doença e filme partilham o ritmo dos primeiros sarcomas e das informações incertas – “pacto de ignorância”, nas palavras do próprio Rodrigo, que é também mantido com o espectador. Mas como fugir do próprio corpo? Para aqueles que estão ali, a convivência entre o absurdo medo de morrer, a redenção, a revolta e a celebração é marcada por antibióticos, antivirais, e tudo quanto é mais “foda-se” contrabandeado.

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Em um poema curiosamente intitulado “Passagem do ano”, Carlos Drummond de Andrade escreve: A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

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