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O tesouro do stalker

O nascimento de Helena, de Rodrigo Almeida (2021)

Por Geo Abreu

Com o singelo sonho de destruir uma família, o personagem de O nascimento de Helena expõe sua jornada a partir de elementos narrativos clássicos: desde a escolha pelo voz over, passando pelo livro de Joseph Campbell, até o franco deboche sobre a matriz da dramaturgia no Brasil, o folhetim. Por meio do estabelecimento de relações entre algumas modalidades da narratividade popular, como as histórias de pescador, a fofoca e a telenovela, o diretor opta pelo uso do vídeo vertical, cada vez mais difundido a partir das redes sociais de microvídeos. Essa escolha aponta para a gradual transição dessas formas populares de narrar para o ambiente da internet.

O título do curta, evocando tanto a musa da Odisseia quanto as personagens de Manoel Carlos, reafirma a passividade que está na essência dessas personagens femininas, que existem apenas em função da figura do herói, do conquistador. Aqueles cujas aventuras estão na origem de todas as histórias já escritas, pelo menos até aqui.

Disposto a produzir as condições para a realização de uma cena digna de novela, fruto de uma fantasia adolescente, o personagem relata toda a paciência que precisou reunir enquanto esperava pelo dia em que finalmente pôde confrontar as estruturas da tradicional família cisheteronormativa. A forma escolhida para o relato faz o filme parecer um telefonema ilustrado ou um vídeo meme produzido com celular.

A história, desenvolvida a partir da desnaturalização das imagens, experimenta filtros padrão usados nas redes sociais a fim de estabelecer algum ruído entre a paisagem bucólica e a história contada. Essa relação entre as tecnologias audiovisuais e as referências tradicionais faz parte de um programa comum a muitos dos filmes produzidos pelo coletivo Surto & Deslumbramento: a atualização de um dandismo exercido pela via do cinema e disposto a borrar as fronteiras entre o clássico e a vanguarda.

Essas escolhas formais trabalham também para pôr em destaque a artificialidade da moral vigente, ocupando espaço no terreno das narrativas em disputa.

Assim, Rodrigo Almeida entrega um filme que, produzido a partir das contingências da pandemia de covid-19, não parece contingenciado por ela. Ao contrário, abre a facão um caminho onde antes era só mato marcado por restos de presença humana.

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