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Uma guerra invisível pelo futuro de outros

Os primeiros soldados (Rodrigo de Oliveira, 2021)

Por Dri Tinoco

Na sequência de abertura de Os primeiros soldados, Suzano (Johnny Massaro) é um soldado faminto, tentando sobreviver. Apesar do que o título possa sugerir em um primeiro momento, o filme não aborda nenhum conflito entre nações ou guerras civis. Trata-se de uma guerra pessoal que o protagonista sabe estar perdida.

Os primeiros soldados acompanha três pessoas, em meados dos anos 80, lidando com o fato de serem HIV positivas. Suzano é um biólogo que retorna ao Brasil após viver na França; Rose (Renata Carvalho), uma artista transexual; e Humberto (Vitor Camilo), um videomaker que está desenvolvendo um vídeo sobre ela. Na primeira parte do filme, é virada do ano e cada um está lidando com a doença à sua maneira. Suzano escolhe se isolar, mesmo contando com uma irmã (Clara Choveaux) e sobrinho (Alex Bonini) amorosos; apesar de sua própria tristeza, Rose canta para animar e dar alguma esperança aos frequentadores da boate queer em que se apresenta; já Humberto inicia um relacionamento. Em comum, a decisão de ocultar a AIDS de familiares, amigos e namorados.

Na segunda parte, temos três desaparecidos. Suzano, Rose e Humberto abandonam suas vidas, se isolando para testar drogas experimentais no tratamento da AIDS, na esperança de encontrar uma cura ou ao menos retardar o processo de deterioração de seus corpos. A decisão de se afastarem do mundo pode soar estranha, porém esses personagens já se encontravam exilados antes. Exilados pelo medo e preconceito que estigmatizam os infectados e também pela falta de políticas públicas que lhes dessem apoio. Inclusive, o filme ressalta como a AIDS era um tabu ao evitar que a doença seja nomeada na maior parte do filme. 

Há uma certa austeridade na direção de Oliveira, que recorre a muitos planos estáticos, seja com Rose consolando Suzano ou a investigação da mancha na sola do pé de Humberto. O tom sóbrio também está nos diálogos e nas atuações, que evitam que o filme vá pelo caminho do melodrama, optando por um distanciamento reflexivo. 

No fim das contas, Suzano, Rose e Humberto sabem bem que a possibilidade de evitar a morte é ínfima. Assim, preferem esperar o fim entre os que partilham suas dores. Eles são baixas em uma guerra invisível. Uma guerra pela vida, pelo futuro. Porém, não o futuro desse trio, mas de outra geração LGBTQIA+, que poderá ter a chance de envelhecer e dar prosseguimento à luta iniciada por esses “soldados”. Como afirma Rose: “eles tentam nos matar desde que o mundo é mundo, é isso é o que eles fazem. E o que a gente faz é sobreviver sendo linda”.

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