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Vai dar pra ser feliz

Os primeiros soldados (Rodrigo de Oliveira, 2021)

Por Thiago Gelli

A realidade é elusiva, a história é capciosa e a exposição é raramente acessível no cotidiano. Por isso mesmo, sob as luzes da ribalta de palcos e estúdios, aquilo que foge da apreensão tende a ser expandido à máxima, em forma de Blanche DuBois, Norma Desmond, Baby Jane, entre outras. A tradição da performance desvairada celebra a crueza por via da autoconsciência e transparência, o que simplesmente não é acolhido pela vida em uma sociedade normativa – essa é uma peça-chave do enternecimento que a arte queer tem por tantas divas em espiral.

Ambas figuras forasteiras da normatividade, a mulher dita insana e o indivíduo queer vivem em repressão que pressiona a busca por novas expressões. Para quem habita eternas ruelas de Sodoma e Gomorra, há conforto a ser encontrado na performance e na ficção que não se amedrontam face ao hiperssexual, ao violento e ao fantasioso, onde, na exclusão de códigos normativos, uma pessoa pode apenas ser – com sua dor, paixão e sensualidade.

É aí que Os primeiros soldados, de Rodrigo de Oliveira, assenta. Disfarçado de drama linear, o filme inaugura com uma cena de guerra gravada em VHS, não se anunciando enquanto crônica nacional da crise da aids. A mensagem é clara: trata-se de um filme sobre arte. 

Enquanto acompanha sua tríade de protagonistas, Os primeiros soldados sabe não se desprender de sua condição de existência fílmica. O rosto de Johnny Massaro, como Suzano, delicadamente iluminado por tons de azul, dá vazão ao deslumbrante melodrama que não espelha, mas desvela. 

Assim como uma grande personagem explosiva, Massaro compreende que a qualidade de uma performance não é determinada pela verossimilhança a ela atribuída. Com anseio em cada palavra e uma falta de fôlego que nunca o abandona, o ator interpreta uma ferida aberta pelas ruas de Vitória, oferecendo corpo e mente ao mundo como que em instalação artística.

Ao lado dos parceiros que acompanham sua busca, interpretados por Renata Carvalho e Vitor Camilo, Suzano forma uma espécie de coletivo, no qual as relações com a doença e com suas vidas são demarcadas pela expressão artística — esteja essa no manejo de uma câmera, no ato musical, na arte drag ou na memória. Como peças de um espetáculo, os personagens têm sua humanidade amplificada. Onde palavras se perdem, um tecido vermelho, uma canção de Gonzaguinha, uma câmera, gestos e olhares celebram a integridade emocional dos enfermos, e evocam uma comunidade que carrega suas cicatrizes. Nesse sentido (e despido de presença heterossexual), Os primeiros soldados se declara a toda sorte de mente criativa tomada pela aids, e, ao invés de didatizar a imponência do ódio que toda a pessoa LGBT+ conhece intuitivamente, celebra a comunhão e um futuro que se comunica com legados deixados. 

Em certo ponto, dentro do bar Genet, entre as paredes cobertas de recortes do jornal gay O Lampião da Esquina, um grupo de homens canta “vai dar pra ser feliz” enquanto ocorre a virada de ano, deliciando-se com o sentido satírico da frase e unidos por seu espírito transgressor. É cômico, lascivo, embriagado, agridoce e solto, como uma boa performance amoral que, sem nenhuma ligação explícita à homossexualidade, ainda é categorizada como queer. Uma sinédoque imbuída de identidade não narrada, mas vivida.

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