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Direito de nascer

Chão de fábrica, de Nina Kopko (2021)

Por Diego Silva Souza

Chão de fábrica, de Nina Kopko, revisa o período de constantes greves operárias no ABC paulista no fim dos anos 70. O curta se detém nas experiências singulares de quatro mulheres operárias dentro desse chão de fábrica no qual o filme se passa. Mas apesar da premissa se aproximar de Trabalhadoras metalúrgicas (1978, Olga Futemma e Renato Tapajós), a ficção de Kopko também se distancia do documentário em muitos sentidos.

No filme de Kopko, acompanhamos Irene (Alice Marcone), Joana (Helena Albergaria), Renata (Carol Duarte) e Miriam (Joana Castro) confinadas durante o horário de almoço do serviço em um banheiro dentro da usina. Nesse recorte de tempo, as quatro constroem vínculos umas com as outras, tanto através dos conflitos ideológicos sobre aderir ou não à greve quanto na partilha de sonhos e responsabilidades que fundamentam o posicionamento de cada uma.

É ao falar sobre um desses sonhos que Irene conta às companheiras que, quando pequena, gostaria de ser locutora de radionovelas, e recebe de Miriam o pedido para que transforme suas vidas em uma estória. E aqui reside uma diferença essencial entre Chão de fábrica e Trabalhadoras metalúrgicas. Enquanto o registro de Futemma e Tapajós, realizado na época de efervescência do movimento metalúrgico, retrata essas mulheres em um lugar de reivindicação direta — dentro de um congresso, de frente para uma câmera que irá gerar imagens que virão a se tornar um documentário —, no exercício de fabulação proposto por Kopko vemos um precioso gesto de imaginar essas mulheres em um momento mais vulnerável, de estreitamento de relações entre elas.

 A opção pela gravação do filme em VHS, preservando as cores desbotadas e uma proporção de imagem que não preenche toda a tela, vai ao encontro da fabulação na qual as personagens, pela narração de Irene e a sonoplastia que quebra o som natural do restante do filme, encontram uma possibilidade de existir para além daquele ambiente enclausurado do banheiro de trabalho onde elas são obrigadas a almoçar. Mais do que uma simples descrição do que irá acontecer com cada uma delas, as intervenções sonoras da narração soam como o cumprimento do desejo anunciado anteriormente por Miriam e Renata de ter suas histórias contadas e, mais do que isso, suas subjetividades reconhecidas.

Essa aderência à ficção se rompe somente ao final, quando as quatro mulheres dão lugar aos planos documentais do maquinário de uma fábrica aparentemente largada ao esquecimento. Quando voltamos a vê-las, contrastando com a cena anterior, Irene quebra a quarta parede como em uma peça de teatro épico (como aquela na qual Chão de fábrica se inspira): “Nós nunca esqueceremos que estivemos lá”. Um contraste que demarca um lugar de não conformidade de personagens e filme.

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