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Desordem do gesto

O dia da posse (Allan Ribeiro, 2021)

Por Manu Zilveti

Recentemente, em uma conversa de júri, surgiu a reflexão sobre este ser o momento de olharmos com atenção para os filmes de quarentena, principalmente os que estão rodando nos circuitos de festivais. Se em 2020 estas obras dividiram espaço com aquelas realizadas em cenário pré-pandêmico, em 2021 foi inexorável que elas tomassem conta das telas.

Embora exista uma variedade enorme de filmes feitos ao longo da pandemia, muitos partilham de algumas mesmas características: equipes reduzidas, locações restritas, equipamentos caseiros e, principalmente, a opacidade de falar sobre as condições que estas obras foram feitas. Em que de certo modo, a precariedade sanitária e econômica vivenciada pelo coletivo se torna incontornável.

As limitações impostas por esta realidade acabam muitas vezes sendo responsáveis por modular a mise-en-scène particular destes universos fílmicos. Qual o sentido de filmar em meio à inércia, à decomposição e à perda de parâmetros de normalidade? É neste cenário de quarentena que O dia da posse (Allan Ribeiro, 2021) registra seu protagonista Brendo, através do olhar de Allan Ribeiro, personagem e diretor do longa.

O filme se inicia com planos extremamente fechados. Suas imagens ampliadas, sem gravidade, flutuando em cena, com o zoom enorme e os pixels em evidência dão a sensação de suspensão. As filmagens capturadas dos prédios que cercam o apartamento de Brendo parecem uma memória coletiva de cenas vivenciadas pelo isolamento. A câmera vigia com um curioso desinteresse a vida dos vizinhos também presos na letárgica vida de quarentena. A obra se sustenta condicionalmente a esta situação que a cerca, recorrendo em muitos momentos a ilustrar este ato de se estar realizando um filme, seja em pequenas quebras de suspensão da realidade, como quando a mãe de Allan em uma ligação de vídeo com o filho percebe que a conversa está sendo filmada; seja em momentos que esta autoconsciência perdura em cena, como quando Brendo reclama de repetir a encenação dos gestos banais propostos pelo diretor.

É neste jogo de colocar em evidência a ação de filmar e de fazer filme que o longa se enreda. Nele, filmar é também participar dessa inação, de controlar o gesto, repeti-lo e modulá-lo. A intenção do registro quase sempre não é invisível, ela atravessa a imagem e entra nos diálogos do filme. Seu momento de maior tensão ocorre quando Brendo, sufocado pelo enquadramento, devolve o gesto, dirige frustradamente a cena, pedindo que não seja dado zoom no meu rosto, e provocativamente é justamente isso que a câmera faz.

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