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Dias, dias, dias

Diários de Otsoga (Maureen Fazendeiro, Miguel Gomes, 2021)

Por Giuliana Zamprogno

Alguém que, curvado sobre si mesmo, deixando o dorso pender sobre o corpo e as mãos quase encostando no chão, ao abrir os olhos veria finalmente o mundo invertido por baixo das pernas abertas. Diários de Otsoga (Maureen Fazendeiro e Miguel Gomes, 2021) teria essa imagem às avessas. Para além do recurso do flashback ou de uma simples recapitulação dos eventos, o filme faz uma espécie de retroflexão no tempo, que não só corre para trás, para o início de tudo, mas que também, no movimento de dobra, vai colocando lupas em sua própria matéria indicial.

À medida em que os cartões coloridos demarcam os dias, vemos as tarefas que três amigos, Carloto, Crista e João, arranjaram para fazer no clima preguiçoso do sítio de verão. Em uma noite, após escrever em seu diário, Carloto apaga a luminária da mesa do quarto cuja última fulguração da luz verde se confunde com um dos cartões-intertítulo de mesma cor. Esse pequeno raccord indica a penetração gradual de um fora de quadro para dentro do quadro, chegando ao ponto de a equipe técnica do filme entrar de fato na imagem.

A partir daí, o filme se investiga quase da mesma maneira com que cientificamente acompanha o marmelo apodrecido voltar a ter viço. Diários de Otsoga correria o risco de ser autoanalítico ao extremo, querendo se entender demais, no entanto, como o processo de produção parece ser construído para também ser encenado, o filme não faz da quebra do pacto ficcional algo a ser celebrado per se. Aberto ao tempo, também não poderia deixar de estar lastreado na conjuntura global da realização: há ali a marca da pandemia e as querelas intrínsecas a toda produção cinematográfica.

Nesse processo, o duplo ator/personagem se unifica. Quando Crista questiona as tarefas manuais propostas, dando a entender que elas não fazem parte do escopo de trabalho do ator, seu ar insatisfeito revela uma premissa concreta da divisão do trabalho não só na economia do audiovisual: a diferença entre trabalho “técnico” e “artístico”, “braçal” eintelectual”, “inferior” e “superior”. O filme joga com essas fronteiras ao mesclar as funções (técnicos viram personagens diante da câmera e atores labutam), chegando a indefini-las pontualmente: pelo movimento de câmera que a acompanha, a cozinheira poderia ser uma atriz contratada.

À primeira vista, “Otsoga” pode soar estranhamente como o nome de um lugar, porém, enquanto efetivamente produto do efeito espelhado de “Agosto”, diz respeito a uma arqueologia de lugar nenhum. Melhor dizendo, antes de ser uma simples pegadinha de Fazendeiro e Gomes, a palavra reversa supõe uma abstração das referências temporais e espaciais, fazendo com que o filme ultrapasse suas próprias dimensões. Assim, concepções partilhadas e sistemas globais de produção são afetados coletiva e concretamente num terreno indefinido, seja ele fictício ou set de filmagem.

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