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Minha pele é minha roupa

Tecido, sigilo (Lucílio Jota, 2021)

Por Geo Abreu

Corpos negros e periféricos são aqueles que estão, em seus movimentos diários, transformando “configurações de conhecimento e poder à medida que nos movemos entre limites opressivos” *.

Transitar entre a margem e o centro não é serviço para qualquer pessoa. Para os corpos negros, marcados pelo preconceito estrutural, é, como diz Grada Kilomba, sempre perfazer um caminho que evoca dor, decepção e raiva. Em Tecido, sigilo acompanhamos depoimentos que tratam da importância dada a certos códigos de vestir e agir, parte de um acordo tácito que atua na permissão do trânsito livre pela cidade, desbloqueando o acesso, ainda negado a certos corpos. Na rapidez desse julgamento, movimento realizado numa fração de segundos, está também o tempo de respostas violentas e hostis que viram notícia e estatística todos os dias no país.

O filme trabalha com a poética do corpo em relação a esses depoimentos e, na apresentação do problema, vemos um homem negro que sai de casa com uma valise abarrotada de roupas com estilos diferentes. À medida em que ele se afasta de sua casa, de seu bairro, alguma peça muda e a ligação entre esse gesto e a maleta alimenta a ideia de que o trabalho exigido dele também passe pelo entendimento dessa condição e a elaboração da mudança como estratégia e camuflagem.

A roupa como passaporte de acesso faz com que aqueles cujo trânsito ainda é condicionado a algumas partes da cidade tenham ciência sobre como ir e vir e o que levar na viagem entre margem e centro, um conhecimento que só é acessado por aqueles que transitam. Em frente ao prédio comercial acontece a maior transição: a imagem em movimento contrário soma-se aos movimentos incomuns do bailarino em revés e fazem pensar numa viagem no tempo cuja nave é o próprio corpo. A desrealização expressa na antinaturalidade de assumir aquele personagem faz dele passageiro num vai-e-vem entremundos, viajante do tempo plasmado – 1888 nunca se realizou? -, acolhendo em si mesmo presente e passado sob a pele. É esse o movimento que aquela dança demonstra, o fazer caber em si mundos antagônicos que mal o acolhem, complexificados pelo movimento orquestrado entre aquelas duas figuras que se cruzam, num ínfimo de tempo, em frente ao prédio. Ele entrando e ela saindo daquela espécie de transe ritual.

Conseguir elaborar ideias tão complexas a partir de pouco e simples elementos – dança e montagem – fazem desse curta algo especial de ser encontrado.

*Esse texto utiliza algumas ideias citadas no capítulo “Quem pode falar?”, do livro Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano, escrito por Grada Kilomba

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