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Perlimps, de Alê Abreu

Aline Gomes. 3 out. 2022

O que há em comum entre o colapso ambiental e a arte? A resposta para tal pergunta não parece tão simples. Mas existe algo que esses dois assuntos compartilham, ambos tratam dos resultados da ação humana. Talvez a arte possa ser a mais convincente ao produzir discursos que falem em favor do homem, ao passo que as crises socioambientais são em grande parte o fruto do que de mais desprezível e estúpido os homens têm em si: seu amor pelo capitalismo, pela expansão e pelo lucro. Perlimps de Alê Abreu cria uma fantasia que tangência elementos importantes dessa relação com a natureza. O filme apresenta a jornada de dois meninos, Claé e Bruô, que unem seus caminhos para protegerem um bosque dos malefícios de uma fábrica. Essa indústria, instalada próxima ao território verde, é gerenciada por gigantes e produzirá uma grande onda que destruirá toda natureza do entorno.            

A história é contada por meio de cenas que apresentam um virtuoso jogo de cores e formas. Diferentemente de seu trabalho anterior, O menino e o mundo (2014), onde as cores eram comedidas e muitos dos personagens recebiam traços concisos, em Perlimps as composições ganham uma explosão de tons. Tanto as paisagens como os personagens, são compostos por volumes densos. Formas corporais e vegetais possuem dimensões sólidas, ocupando espaço nas cenas. Um exemplo dessa experimentação aparece na vegetação que compõe as paisagens. Algumas das cenas iniciais são tomadas por uma vegetação que lembra as colagens do pintor francês Henri Matisse (figuras 1 e 2). Inspirado nos formatos de folhas que cultivava em casa Matisse criou exultantes composições de cores vivas, formatos assimétricos e contornos ondulantes.

HENRI MATISSE (1869–1954). La Gerbe (The Sheaf), 1953. Guache, papel, montado em tela, 293.4 × 350.5 × 3.2 cm. Acervo: Collection University of California, Los Angeles. Hammer Museum. Fonte: https://collections.lacma.org/node/207557

Se visualmente Perlimps se impõe, a sonoridade que acompanha as aventuras dos meninos também se destaca. Isso ocorre porque para salvar a floresta é necessário encontrar os Perlimps, seres iluminados com energia capaz de evitar a destruição da natureza. O encontro com essas criaturas não é simples. A única indicação de localização que Claé e Bruô possuem se origina de um conjunto de sons que se reproduzem por um rádio antigo. A brincadeira remete ao jogo de notas musicais que Steven Spielberg utilizou em Contatos   Imediatos   do   Terceiro   Grau (1977).  No filme de Spielberg o som se repetia numa sequência fixa que sugeria uma comunicação advinda do sobrenatural. Em Perlimps é a natureza que se comunica operando de forma semelhante, tons musicais repetidos criam uma interface de mediação. A repetição produz uma certa familiaridade e as escalas musicais criam certa afinidade, como a sensação de uma conversa. A natureza rompe o silêncio gerando uma via diretamente com as nossas emoções.             

Além desses aspectos formais, no que diz respeito ao enredo, o destaque se dá na parceria entre os dois meninos. Eles discordam, brigam, se ajudam e confraternizam. Apesar dessas oscilações, ambos possuem o mesmo objetivo: sobreviver e salvar a sua casa, o planeta terra. A analogia dessa relação complexa pode ser projetada na interação do indivíduo moderno com a natureza. É quase impossível deixar de comparar os eventos do filme com as tragédias ambientais que o Brasil produziu: o rompimento da barragem da mineradora em Brumadinho, o enfraquecimento das políticas de proteção do território amazônico resultante das decisões do governo de Bolsonaro ou a mortandade de indígenas pelos conflitos de garimpeiros que exploram ilegalmente reservas naturais, para citar alguns exemplos. O filme de Abreu propõe receitas para impedir a crise ambiental, mas coloca a arte num papel importante, o de pensar sobre o humano. Se há algum recado em Perlimps é de que se mantida a trajetória de colapso ambiental em que estamos, não é mais razoável cultivar incertezas. 

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