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A pintura como espelho de uma época

David Dawson, Harry Styles e Emma Corrin são os vértices do triângulo de “My Policeman”

Michael Grandage denuncia os percalços de um amor clandestino, na Inglaterra dos anos 50, em ‘My Policeman’

Aline Gomes

“My Policeman” trata da vida do policial Tom, da professora Marion e do curador de museu Patrick. Tom e Patrick se apaixonam, ao mesmo tempo em que o policial se compromete em um matrimônio com Marion. Esses acontecimentos são relatados a partir da leitura do diário de Patrick, feita pela professora já com mais idade. Ali intimidade e segredos são revelados em flashbacks que retornam para a Inglaterra dos anos 1950. O cineasta britânico Michael Grandage constrói um momento especial na cena em que o trio contempla o quadro do pintor britânico William Turner.

Juntos numa comunhão silenciosa, o momento retrata uma absorção e atração mútua entre pintura e os três personagens. Na composição de Turner vemos uma tempestade no mar com um barco navegando com grande dificuldade. As pinceladas demonstram magistralmente o caos e a intensidade da fúria da natureza, talvez um prenúncio sobre o que aconteceria com o trio. Não é a primeira vez que Grandage demonstra seu interesse pelas artes plásticas. Em 2018, ele já havia realizado o filme Red sobre o pintor Mark Rothko.

Alguns lugares tem o poder de alterar nossos comportamentos. Numa sala de cinema, dependendo do filme, há uma certa excitação antes de iniciar a sessão.  Esse era o caso do cinema em Botafogo. Na exibição do Festival do Rio, perto da meia-noite, a sala foi tomada por um burburinho animado de um público predominantemente jovem para assistirem a My Policeman. Roland Barthes, num ensaio sobre a sala de exibição, chama isso de “situação de cinema”. Talvez essa expressão possa ser emprestada para as salas de museus. É comum que nossa gestualidade mude ao caminharmos pelos corredores de um museu. Os passos desaceleram, passamos a sussurrar e o riso se contém. Uma espécie de prazer e mistério contaminam o ambiente.

Outro elemento importante é o contraste entre as relações que Tom estabelece. Tal diferença é demarcada pela sexualidade. O sexo entre Tom e Marion causa incômodo e desconforto. Ao contrário, nas cenas com Patrick predominam aspectos de um erotismo pulsante por ângulos e recortes poéticos. Há cenas em que o diretor aponta a câmera para o espelho e o prazer dos dois rapazes é apresentado de forma voyeurística por esse reflexo. Um dos espelhos tem o formato arredondado e moldura ornamentada que remete ao quadro do Casal Arnolfini (1434), em que Jan van Eyck usa o reflexo do espelho para fornecer mais detalhes da cena. No filme a pintura foi impulsionadora de eventos, mas no decorrer da trama o objeto artístico perde sua importância, e Michael Grandage entra num terreno já explorado no campo cinematográfico ao enfatizar as dificuldades de um amor clandestino, que sofre as agruras do preconceito.

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