Ir para conteúdo

Diferença e repetição

‘A Reprodução Proibida’ (1937), de René Magritte: a natureza enganadora das imagens

Obra do diretor Kei Ishikawa, ‘Aru Otoko’ investe em trama sobre subjetividade, identidade e xenofobia

Paula Mermelstein

O primeiro plano de “Um Homem” (“Aru Otoko”), de Kei Ishikawa, mostra o quadro “A Reprodução Proibida” (1937), de René Magritte, no qual um homem de costas é duplicado no espelho. Menos do que uma imagem meramente ilustrativa, o quadro parece germinar toda a trama do filme – adaptado de um romance homônimo -, que acompanha o advogado Akira em sua busca pela verdadeira identidade de um homem que acaba de falecer, assim como pelo paradeiro do homem cuja identidade foi supostamente roubada pelo morto.

Em meio a esta trama, um colega de Akira comenta um caso de menor importância em que está trabalhando: garrafas de vinho barato estavam sendo vendidas por preços exorbitantes com rótulos falsificados. O caso funciona como analogia para a trama principal, em que a identidade roubada é como um rótulo trocado que dissimula suas origens, remetendo, também, à própria obra de Magritte, que costuma investigar a natureza enganadora das imagens. Seu quadro mais famoso é provavelmente “A Traição das Imagens”, em que a imagem de um cachimbo é acompanhada da frase “isto não é um cachimbo”.

No entanto, embora sua premissa seja interessante, o filme é a todo momento ameaçado por clichês. A ambiguidade construída é continuamente obliterada por incursões demasiadamente literais e instrutivas. O homem falecido escondia sua identidade por ser filho de um assassino e o advogado (descendente de coreanos) se envolve tão intensamente no caso por ele mesmo ter sua identidade japonesa questionada a todo momento, em meio a um contexto de xenofobia.

Ishikawa é capaz de perceber a capacidade de permutação de suas histórias, mas ainda se perde nelas, deixando de explorar o potencial auto-reflexivo que uma estrutura mais abstrata poderia oferecer. Ocupa-se demasiadamente em nos garantir que existe sim alguma essência inabalável em cada homem – que reconheceríamos a qualidade de um vinho apesar de seu rótulo -, enquanto Magritte nos prova o contrário, que tudo é imagem e, se existe alguma diferença entre uma cópia e um original, ela é irrelevante.

Categorias

Sem categoria

Tags

%d blogueiros gostam disto: