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Lembrar e esquecer é uma delícia

Isabella, Pedro e Jonata vagam por São Paulo assombrados por uma pandemia viral que ataca a memória

Em ‘Três Tigres Tristes’, Gustavo Vinagre ratifica sua preferência pela temática queer e personagens excêntricos

Kamilla Medeiros

Três Tigres Tristes,

Andamos juntos pela pista,

Mas, cuidado, há perigo na esquina,

Que o vírus que come o juízo da gente corre solto por aí.


Três Tigres Tristes,

Entre as dores e as delícias de esquecer e de lembrar quem somos,

Quem poderíamos ser,

Quem já fomos.

Três Tigres Tristes,

Dentro e fora da realidade,

Fora e dentro do sonho,

Seguimos pela curva perigosa.

Isabella [Pereira], Jonata [Vieira] e Pedro [Ribeiro], nosso jovem trio tristonho queer, perambulam por uma São Paulo distópica, assombrada pela nova cepa de um vírus que deixa as pessoas desmemoriadas. Essa é a premissa do novo filme dirigido por Gustavo Vinagre, premiado no 36º Teddy Awards durante o Festival de Berlim 2022 e que estreia por aqui na Première Brasil: Competição Novos Rumos do Festival do Rio. Com 14 curtas-metragens e seis longas no currículo, o diretor de “Três Tigres Tristes”não é nenhum novato, seus trabalhos, sejam documentários, ficções ou um pouco de cada, mantém algo em comum, o gosto pela temática queer e personagens excêntricos.

Gravado durante a pandemia de Covid-19, o cenário de isolamento e suas consequências no afeto, na saúde e no trabalho, foram incorporados ao processo de forma a brincar com a fábula e o humor, quase como num conto infantil. Montado em blocos episódicos, passeamos pela cidade com as personagens, entramos em lugares estranhos, um tanto bizarros, que nos levam para situações engraçadas e comoventes. Descobrimos histórias que normalmente não seriam contadas. Uma visita à Dona Mirta (Cida Moreira) num antiquário acaba por se transformar numa cena digna do Chapeleiro Maluco, de “Alice no País das Maravilhas” – uma mesa, xícaras de chá e uma conversa meio alucinada sobre perder a memória.

Uma das facetas mais interessantes do filme é o seu tom fantástico e metafórico ao tratar de um tema que suscita tanta tristeza em cada um de nós – sobreviventes da pandemia e das injustiças de se viver no Brasil. Entre o riso e o lamento, há um sinal de perigo sobre nos esquecermos de nós, no plural mesmo. O trio não é por acaso, e a caminhada solitária nesta parte do caminho não é a mais indicada, sobretudo se você é uma pessoa que não se enquadra nos padrões de uma sociedade conservadora, como a brasileira tem se mostrado cada vez mais. Longe de ser didático, mas, delicadamente poético e divertido, esse aviso é embalado por uma trilha musical original composta por Caetano Gotardo, Marco Dutra e João Marcos de Almeida.

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