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Uma transa Amazônica do século XXI

uma adolescente caminha a esmo, à beira de uma estrada, na região Amazônica

Em ‘Curupira e a máquina do destino’, Janaína Wagner emula uma outra Iracema

Matheus Zenom

“Curupira e a máquina do destino”, curta de Janaína Wagner, é um filme que assimila novos elementos formais e narrativos ao longo de 25 minutos em um movimento contínuo de transformação, demonstrando uma sensibilidade plástica distinta em cada um dos núcleos que marcarão suas passagens. Dentre esses momentos de maior concentração visual, podemos destacar a aparição em intervalos regulares de rostos de crianças, iluminadas pelo fogo de isqueiros na escuridão; depois, o tremor da câmera montada sob a carroça de um caminhão, em que a personagem se deita como carona; e mesmo pela monocromia da parede de madeira vermelha de um bar.

São blocos cênicos de câmera fixa, sob encenações mínimas, que preservam um caráter documental sobre o interior da Amazônia, conforme acompanham uma adolescente caminhar a esmo na beira de estrada, apanhando carona em caminhões, vestindo roupas humildes e carregando apenas uma pequena bolsa de mão como bagagem. O paralelo com “Iracema” (1975), de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, é claro no que diz respeito ao cenário e à caracterização da personagem, que a princípio não podemos definir se representa diretamente uma continuidade das mesmas protagonistas ou apenas uma recorrência de um “tipo” preciso, correspondente a uma condição histórica e social.

Neste sentido, é preciso dizer que “Curupira” não apenas é diverso em sua plástica, mas também nas referências que moldam o seu imaginário particular, como se Janaina Wagner planejasse o seu filme a partir do cálculo entre diferentes forças opostas. A Amazônia é, então, o palco para a convivência entre o elemento realista, da garota, mas também para a introdução do elemento fantástico, proveniente do folclore brasileiro. Sob tom de pastiche, se anunciará em uma reportagem transmitida na TV de um bar a presença de “uma curupira” na região, a qual veremos como um segundo vetor narrativo, atravessando as matas sob uma aparência translúcida, até cruzar o seu caminho com Iracema.

Após definir estes dois espaços (a mata e a estrada que a atravessa) e suas duas personagens (a curupira e Iracema), a realizadora dará continuidade à exploração desse universo pela introdução de fotografias que documentam a construção da rodoviária Transamazônica. Este material, que compreende de outro modo o mesmo realismo das imagens filmadas, sugere um contexto histórico/político como uma espécie de trauma, cuja diferença de registro, marcado pelo preto e branco e a fotografia still, ressalta o caráter de um passado obscurecido da região.

Neste ponto, nos questionamos quanto ao sentido desta inserção, cujo gesto deixa oferece uma carga conceitual distinta dos efeitos artesanais concebidos pela realizadora, e a gravidade das imagens carregam consigo um sentido particular imediato que já está dado, a destruição da natureza para a construção da rodovia. Ao menos, esta é uma questão que parece suficientemente clara para o espectador brasileiro – ou, ao menos, o espectador capaz de reconhecer a referência à “Iracema” de Senna e Bodanzky – e visto daqui esta inserção acaba por soar como uma declaração forçosa de comprometimento social, que não parece encontrar neste projeto o fôlego bastante para ir a fundo no problema, para acrescentar algo novo ao que já conhecemos sobre ele.

Afinal, o que na feitura do filme acaba por requerer, em sua prática, apenas um gesto mais simples de colagem, em sua recepção sugere ao espectador uma nova medida dos conflitos antes apresentados, para os quais deveriam surgir outras soluções. As imagens mostradas fazem pensar em um conflito histórico de marcas profundas, com os quais o filme não mais lidará e neste ponto se evidenciam as distâncias entre este filme e o clássico com o qual dialoga, uma vez que a miséria e a exploração humana, em “Iracema”, serão objetos de uma denúncia eloquente, retratados de maneira direta pelos seus mecanismos ficcionais.

De modo significativo, a inserção dos documentos em “Curupira” acaba por desviar a atenção do que poderia dizer respeito aos problemas históricos no contexto contemporâneo, do qual o filme inicialmente nos dá pistas, a partir dos cenários devastados que entrevê nos planos encenados. No lugar disso, Wagner buscará a sutileza de um desfecho positivo, com uma espécie de conciliação simbólica entre estas forças locais contra a ameaça passada ou iminente. Este escape é o que, enfim, atribui certa superficialidade ao gesto de inserção, embora ela mesma deva ser destacada como uma tentativa válida, ao lado de uma competência técnica e uma ambição estética que surpreende no panorama do curta-metragem.

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