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Véu, grinalda e preconceito

Paloma (Kika Sena) e seu Zé (Ridson Reis): quais os limites do amor?

Marcelo Gomes retorna ao sertão em ‘Paloma’ para contar a saga de uma mulher trans em busca do sonho de se casar na igreja

Kamilla Medeiros

Paloma (Kika Sena) quer casar na igreja. Religiosa, trabalhadora, afetuosa e determinada, ela quer tudo o que tem direito e merece: vestido branco, padre, anel no dedo e ser a mulher trans mais feliz de Saloá, no interior de Pernambuco, com o seu Zé (Ridson Reis). O diretor de “Cinema, Aspirinas e Urubus”(2005); “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” (2009), com Karim Aïnouz; e “Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar” (2019) retorna, mais uma vez, ao sertão nordestino. O enredo do novo filme é baseado numa história real de uma mulher trans publicada em um jornal, o suficiente para encantar Marcelo Gomes a escrever um roteiro original com Armando Praça e Gustavo Campos.

A vida da protagonista gira em torno do trabalho pesado como agricultora numa plantação de mamão, de fazer bicos de cabeleireira e de cuidar da sua filha Jennifer (Anita Souza de Macedo), ao lado do namorado, que não parece tão interessado assim em se casar com ela. Mas a fé no amor não abala os seus planos nem mesmo quando o padre da cidade se recusa a realizar a cerimônia. A lei de Deus na Terra é bem clara há mais de um milênio, Paloma não pode se casar. Um pecado desses nunca seria tolerado. O jeito seria mandar uma carta ao Papa, no Vaticano. E, assim, fez: papel e caneta na mão de uma amiga já que a nossa pretensa noiva não sabe ler nem escrever.

Com elementos melodramáticos à flor da pele, o filme nos faz refletir se o que Paloma realmente quer seria mesmo o melhor para ela. Será que insistir em se legitimar como mulher pela via do casamento tradicional numa sociedade preconceituosa a tornará aceita como é por dentro e por fora? O seu querido Zé não parece compartilhar do mesmo sonho, talvez para ele bastasse ficar entre quatro paredes. Aos olhos de Deus e dos vizinhos que a maldizem, melhor não misturar as coisas. Uma determinação apaixonada pode não ser o suficiente em meio às ameaças à própria vida de uma mulher trans, até que um dia um milagre acontece e o sonho de subir no altar talvez ainda possa se realizar. Eis a contradição e a ilusão que nossa noiva precisará enfrentar até o fim.

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