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A dupla vida de Simone

Simone (Sol Miranda) em cena de autoasfixia para seus  espectadores anônimos

Júlia Murat explora os limites do prazer de uma camgirl em ‘Regra 34’

Matheus Zenom

“Regra 34”, de Júlia Murat, acompanha fielmente sua protagonista, Simone (Sol Miranda), uma mulher negra que trabalha formalmente como defensora pública e, mais espontaneamente, como camgirl – e que, a partir dos pedidos de seus espectadores, passa a realizar performances de autoasfixia e adentra cada vez mais nas práticas bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo (BDSM). Será a partir do destaque a um dos espectadores anônimos de Simone – ao qual ela oferece a oportunidade de uma transmissão exclusiva, ultrapassando os limites de sua rotina – que “Regra 34” colocará para si um desafio que possibilite concretizar seu potencial transgressivo: como mostrar uma relação sexual violenta e quais são as consequências dessa experiência para Simone.

Então, o filme mostra a preparação da protagonista, pouco a pouco estudando na teoria e na prática como realizar essas performances. O sadismo, para Simone, apresenta-se como um jogo de regras pré-existentes, que tem as suas delimitações controladas e que, em certa medida, chegam até mesmo a se associar a formulação dos termos do Direito, em seu vocabulário formal, tal como discutido nas cenas entre Simone e seus companheiros de faculdade. A manifestação do sadismo nas imagens, entretanto, passará por um registro em que o regime diegético de personagens e a função interpretativa de seus atores parecem passar a um segundo plano, conforme nossa atenção é dirigida a suas presenças e interação física. Trata-se de algo que, ao ator, pode ser preparado, mas jamais efetivamente “atuado”: eles se queimam, enforcam, mordem e cortam, tudo isto posto frente à câmera, por meio de suas aparências concretas (e relações que podem ser ditas “ontológicas”), na exposição de uma perversão jamais resumida em termos facilmente classificáveis, deixando de lado qualquer motivação psicológica para tanto.

O impulso de ver o que não pode passar pelos mecanismos de atuação recorrentes é o que move o direcionamento dessas ações sob o pedido dos espectadores que vemos interagir no chat das transmissões de Simone, exibidas em formato de desktop. Sua performance recorrente já não interessa mais ao público, que não se satisfaz em ver encenações já naturalizadas. Neste sentido, o pedido pela transgressão força Simone a buscar novos modelos de atuação e acompanhamos o seu aprendizado a respeito deste universo, que passa pela leitura teórica, o estudo da carga conceitual que, em certo momento, se confunde com a própria retórica jurídica presente em outras cenas.

No filme, entretanto, a representação desta busca continua a passar pelos mesmos modelos naturalistas, até que se chegue à sequência em que efetivamente a busca se manifesta na ação, quando Simone performa frente a câmera junto de seu amigo Coyote (Lucas Andrade), em uma exibição privada para um espectador anônimo de destaque – apropriadamente chamado Mr. Cock (Sr. Pênis), pois sua masculinidade é o único elemento que o distingue. Então, existe um aprofundamento das relações estabelecidas a partir do gestual dos atores no interior do quadro, no sentido de algo que não pode ser traduzido por palavras, mas apenas na sua fisicalidade imediata, que a câmera registra de maneira passiva, cedendo o espaço à presença dos atores e aos efeitos que os gestos aprisionam em si.

A relação entre o sentido retórico do sadismo e a sua concretização em ação é o tema de todo este filme, explorado inclusive a partir da montagem que contrasta os depoimentos encenados de violência sexual contra mulheres e a violência a que Simone se submete voluntariamente e inflige. No âmbito das encenações, esta tensão está sintetizada no diálogo de Simone com Lúcia (Lorena Comparato), quando a protagonista é criticada pela amiga por seguir comportamentos direcionados por uma indústria sexista. A resposta de Simone será “Desculpa se meu tesão não é suficientemente político para você”. Afinal, a ambiguidade latente entre o impulso sexual de Simone e sua consciência social, constitui um dos elementos de maior complexidade nos conflitos do longa.

Algo nesta frase, presente no trailer do filme, chama a atenção para certo desequilíbrio na trama: a formalidade na formatação da frase parece contradizer a maneira casual como é proferida. Sua cadência particular chama a atenção em meio à fluidez e ao coloquialismo restante, assim como os enquadramentos e a própria postura das atrizes, que se estruturam na preservação de cacoetes cotidianos. Falo do paralelo ou da incoerência entre o texto escrito, a direção de atores e a própria composição da imagem, como se houvesse uma disparidade entre o tratamento do que é a composição do discurso e a maneira como ele é posto em prática, tal como ele é registrado pelos planos do filme ou pela profundidade a que ele se detém para explorar os seus conflitos.

Neste sentido, é importante notar como, a princípio, Simone terá restrições em relação ao sadismo, refletindo a postura do espectador médio deste filme, que se supõe desavisado destas práticas e também será introduzido a elas acompanhando o aprendizado de Simone. O vídeo que lhe é enviado por uma das amigas, nas primeiras cenas do filme, choca a protagonista, mas ela voltará a assisti-lo em diferentes momentos, ficando fascinada por um comportamento que foge das convenções e controle habituais. Isto está posto na própria composição da imagem do vídeo, que somente mais tarde nos será revelado, sob uma textura distinta das imagens encenadas do filme, sem uma iluminação artificial evidente e sob um ângulo inusitado, como que filmado por um celular, dados que fazem com que essas imagens impliquem um senso de “real” ainda mais impactante.

Afinal, existe um paralelo entre a não-convencionalidade do sexo mostrado no filme (em que não veremos sexo oral ou penetração) e a rotina do próprio modelo de representação explorado nas demais cenas de interação mediadas pelo diálogo. “Regra 34” apenas encontra novas saídas nos momentos em que a câmera se detém nas performances de Simone, que se dispõe a uma condição de risco ao criar o seu próprio modelo de atuação ao produzir as suas próprias imagens. Para as personagens, portanto, existe um paralelo que se coloca entre o suporte em que trabalham, o público alvo e a forma nova que devem explorar, colocando-se em uma situação de limite. Inserir esta questão em sua diegese é talvez um dos maiores méritos deste filme, embora se deva ressaltar que, separando-se este argumento do que é o roteiro propriamente dito, percebemos que a condução que leva a este problema da feitura das imagens não é suficientemente delineado pela estrutura narrativa do filme, assim como o filme não parece disposto a abraçar de maneira mais ampla estas características em sua composição.

Ao fim, Simone chega ao que seria o limite de sua aventura sexual: encontrar este espectador em sua casa, sob a única condição de que todas as regras impostas sejam abolidas neste contato direto. Não se trata mais de lidar com um observador passivo, que demanda pela produção de novas imagens, mas de alguém que tem uma efetiva possibilidade de ação. Aqui chamamos atenção ao termo “performance”, antes usado, pois podemos pensar que a partir deste ponto seu trabalho deixa de estar restrito ao suporte das imagens e se coloca na iminência de perder a sua linguagem, de abolir os seus limites, em um confronto direto com a experiência real, fora das lógicas de representação. A representação desta “experiência real”, entretanto, nos é omitida, uma vez que aqui consistiria na noite imprevisível de sexo com um homem desconhecido – e branco, novo problema que o filme introduz nestes últimos momentos, particularmente delicado em relação a um limite das relações dentro de um contexto racial que o roteiro aborda.

“Regra 34” termina com duas de suas imagens de maior desenvoltura formal: o campo e contracampo entre o vidro da janela na porta, que mancha a figura por trás dela, deixando ver apenas a cor de sua pele; e o primeiro plano de Simone, que parte de uma expressão de angústia para chegar a um sorriso malicioso, ao final, que nos sugere uma possibilidade de que abra a porta. Conceitualmente, esta cena parece sugerir que o jogo e seus dilemas morais são passados adiante, deixados para o espectador e para além do filme, que escapa assim à tarefa difícil e necessária de lidar frontalmente com os problemas que havia levantado ao longo de seu decorrer. Afinal, uma vez que Simone parece disposta a ir até o final na aventura que havia forjado para si mesma, é de se esperar que também os responsáveis pelo filme assumam o desafio do tratamento desta cena final, mas sua disposição não parece tão incisiva quanto a que sua protagonista parece ter em seguir adiante.

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