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Burros sonham com burros elétricos?

A luz vermelha, que ilumina tantas sequências, ilumina o quadrúpede como em uma cena kafkiana

Jerzy Skolimowski faz experimentações visuais e sonoras em ‘Eo’

Paula Mermelstein

            Em “Eo” (2022), último filme de Jerzy Skolimowski, acompanhamos a trajetória de um burro assim chamado, em suas passagens por inusitadas situações pela Polônia e arredores. O filme é, em muitos  sentidos, experimental, em que cada situação episódica em que o burro se encontra é uma experiência estética e sensorial nova e intensa. O mundo percorrido pelo protagonista é volátil, tangível, violento, cômico e absurdo.

            O burro, enquanto esse animal que passa tão facilmente de mão em mão, é sobretudo um dispositivo estrutural para a narrativa do filme, um condutor que lhe permite transitar quase aleatoriamente entre as mais diversas situações. Ele está sempre ali, próximo, mas nem sempre diretamente envolvido nas cenas pitorescas que presenciamos. No começo do filme, todos os animais do circo onde ele trabalha são confiscados por uma organização de proteção de animais, evento que implica diretamente em seu destino tortuoso a seguir.

Em dado momento, é sua chegada e o som que produz em um jogo de futebol amador que irá afetar o resultado final. E o burro será levado como mascote do time ganhador, enquanto seus torcedores, primeiro comemoram, apanham do time rival, depois. Em outras situações, no entanto, o protagonista parece apenas acompanhar as ações humanas, como quando está na caçamba de um caminhão e o caminhoneiro tenta atrair uma mulher faminta para o interior do veículo e é depois assassinado. Em um dos últimos episódios, o bicho está do lado de fora de uma casa, ao mesmo tempo em que um padre parece iniciar uma relação amorosa com sua mãe (Isabelle Huppert).

            Como no filme de Robert Bresson, no qual se inspira, “Au Hasard Balthazar” (1966), o burro é uma espécie de veículo para a observação das relações humanas, mas não há, aqui, o peso moral e trágico que a produção francesa carrega. Pois, se no filme de 1966, o animal assume uma condição de metáfora, em que seu papel é o de evidenciar a brutalidade das relações humanas, em “Eo” ele é uma criatura independente, com sonhos e desejos próprios.

            Com isso, ele funciona não apenas como dispositivo estrutural ou objeto de nossa empatia, mas de fato como um protagonista. Não se trata apenas de uma criatura vulnerável a tudo e todos, mas de um ser cuja sensibilidade é compartilhada por nós. Pois assim como o comportamento dos seres humanos em “Eo” é por vezes animalesco, o burro sente e sonha como os humanos, imagens vistas por uma câmera subjetiva. Talvez o momento mais emblemático, que resume o caráter experimental e a estética peculiar do longa, seja quando o animal sonha, após ter apanhado. Sob a característica luz vermelha que ilumina tantas sequências, um quadrúpede robótico caminha pelo mato à noite com suas pernas metálicas, como em uma cena kafkiana.

            Esta sensibilidade parece extrapolar a visão subjetiva do burro e atravessa toda a fábula. É difícil estipular nesse vai e volta entre burro e seres humanos, nesta câmera que transita entre planos de drone que cobrem florestas inteiras e primeiros planos ou planos subjetivos do animal, o que é o ponto de vista do animal, quem de fato narra a história. O burro, a quem o filme não é tão apegado quanto imaginaríamos, com frequência se afastando um pouco dele rumo ao “mundo dos homens”, talvez apenas nos forneça a perspectiva; ou melhor, uma falta de perspectiva, uma incompreensão geral dos motivos por trás das ações frequentemente grotescas e arbitrárias dos homens. Ou talvez nos ofereça uma porta de entrada para uma experiência mais sensória (e cômica) do que lógica, mais ocupada em estimular e confundir os nossos sentidos e expectativas do que em narrar uma trajetória linear e coerente. No final, enfim, em sua estrutura episódica, o filme constitui-se em um acúmulo não simplesmente de experiências vividas pelo burro, mas de experimentações visuais e sonoras perpetuadas por Skolimowski.

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