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Dorothy abre a cortina para David Lynch

Kusama, Waters, Lowery, Ascher, Nicholson, Benson e Moorhead assinam episódios sobre a influência de Oz na obra de Lynch

Alexandre O. Philippe convida colegas para homenagear o diretor de ‘Veludo azul’

Aline Gomes

“Deve ter entrado em mim quando o vi pela primeira vez, como aconteceu com um milhão de outras pessoas”. A frase foi dita por David Lynch sobre sua paixão por O Mágico de Oz (1939). Algumas obras de arte realmente exercem este poder de penetrar em nossa memória. Jamais as deixamos, elas nos acompanham pelo resto de nossas vidas.

            Alexandre O. Philippe, o diretor de Lynch/OZ, usou essa capacidade das imagens se impregnarem em nosso inconsciente como tema de vários documentários. Assim como Lynch, Philippe conhece esse fenômeno e convidou sete colegas para compartilharem suas obsessões. Num time de diretores e críticos como Karyn Kusama, John Waters, David Lowery, Rodney Ascher, Amy Nicholson, Justin Benson e Aaron Moorhead, cada um apresenta sua ideia sobre a influência de Oz na obra de Lynch. O filme, que lembra um dossiê, é organizado por capítulos que apresentam teses sobre o tema.

Philippe parte de uma boa metáfora para tratar do fascínio que Lynch tem sobre Oz: a cortina. Ela é a separação entre o mundo real e o espetáculo. Uma cortina se abre e somos convidados a entrar num mundo onírico. Mais cortinas aparecem, e toda vez que as transpassamos, a jornada se torna mais profunda. A proposta tinha grande chance de se tornar algo tedioso e direcionada apenas para um público de especialistas. No entanto, a edição habilidosa do diretor, sob uma avalanche de imagens vinculadas ao texto narrativo, funciona muito bem. Talvez por usar apenas as vozes dos entrevistados e não suas imagens, além da ausência do ponto de vista de Lynch – conhecido por evitar falar da própria obra –, o documentário confere a sensação de imersão no universo do cineasta.

Cada argumento é apresentado num exercício comparativo de imagens. Numa cena citada de Coração Selvagem (1990), Lula (Laura Dern) usa sapatos vermelhos e, durante um choro de desespero, ela repete o gesto de Dorothy: bate algumas vezes os calcanhares. Esse é o momento em que finalmente a menina do Kansas deixará Oz e voltará para casa. Mas nada acontece com Lula, os sapatos e as batidas não funcionam. Ela não consegue escapar da realidade atroz em que se encontra.

Esse é um dos muitos paralelos explorados no documentário. As conexões não são gratuitas, a livre natureza associativa das análises dos especialistas bem como suas conclusões se complementam. As escolhas dos entrevistados formam um mosaico da obra do diretor americano. Para um público menos especialista, o documentário apresenta essa força do clássico hollywoodiano sobre a poética de Lynch, sem nunca ser muito presunçoso ou acadêmico. Contudo, mesmo para os cinéfilos, o manto de mistério que envolve os filmes de Lynch é preservado. O filme não só presta uma homenagem apropriada a Lynch como demonstra aspectos de Oz que atravessam toda a sua obra. Philippe e seus colegas não esgotam o tema e o trabalho analítico resulta em uma nova perspectiva para repensar o cinema do diretor.

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