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Ecos de uma cidade desequilibrada

Direção artística cruza a rotina dos moradores, performances artísticas em edifícios em ruínas e textos de escritores moçambicanos

Apesar das falhas, longa deve ser visto como obra com valor emocional para  realizadora, e como parte do processo formativo de atores

Hélio Nguane

No primeiro dia do mês de julho de 1979, em Maputo, nascia Domingo Amosse Bié. O seu primeiro choro ecoou tranquilo na capital de um país, Moçambique, que tinha alcançado a independência há quatro anos. Nessa cidade, ele deu os primeiros passos, abraçou a dança contemporânea, inspirou almas e ajudou a lapidar uma nova geração de bailarinos. Em julho de 2018, aceitou um desafio e participou num filme de uma jovem estudante brasileira Ariadine Leitão Zampaulo, que cursava Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Em finais de 2020, Bié perde a vida sem ter a oportunidade de ver a estreia oficial desse filme construído como um mosaico, juntando algumas ideias da realizadora e estudantes de uma turma de Teatro da Escola de Comunicação e Artes, da Universidade Eduardo Mondlane, de Moçambique. A realizadora construiu o filme interlaçando histórias de personagens anónimas, que pisam o chão de uma cidade desequilibrada. Nas imagens vemos uma cidade a amanhecer; jovens a saírem de uma festa; e nos quintais, senhoras iniciam o dia. Um homem corre, uma mulher chega de viagem, um turista passeia, um trabalhador apanha o transporte público e a rádio Maputo Nakuzandza anuncia o desaparecimento de uma noiva.

Sem criar um vínculo afetivo, as personagens seguem suas rotinas diárias: correm sem um rumo aparente, fogem sem motivos, são atormentadas por espíritos, têm sonhos que são frustrados pelos problemas sociais de Maputo. A direção artística do filme tem a intenção de ser ousada, cruza a rotina dos moradores, performances artísticas em edifícios em ruínas e textos de escritores moçambicanos, como Ungulani Ba Ka Khosa, Noémia de Sousa e Hirondina Joshua.

Um dos aspectos positivos do filme é a escolha da trilha sonora e a direção de fotografia que dá o panorama da cidade, desde os subúrbios aos centros urbanos, passando pelas ruínas, até alguns dos seus edifícios emblemáticos – coloniais, é certo. O longa tem como fio condutor 24 horas em Maputo. As histórias por vezes parecem desconexas, às vezes, são desconexas. Existem incoerências no roteiro, muitas e gritantes, erros de continuidade, a prestação de alguns atores deixa a desejar, mas o longa-metragem deve ser visto como uma obra com valor emocional para a realizadora, e para os atores, como parte do seu processo formativo. A película é também um bom ponto de partida para conhecer Maputo, em termos arquitetônicos e emocionais.

Para quem analisa o filme como uma obra comum, no fim vai sentir-se desiludido: o coração palpita sem sobressaltos, a respiração será regular, as pernas não estarão bambas, nem frio na barriga, nem borboletas no estômago, talvez larvas que nunca terão asas, a tal chama da paixão ainda será faísca, fogo de palha, que no máximo vai evoluir a fumaça e cinza.

* A tradução direta do termo nakurandza é te amo, nas variantes das línguas bantu, faladas no Sul de Moçambique.

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