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Um dia em Maputo

As ruínas de Maputo revelam o passado colonial do país africano

Sem simplificações ou transcedências, Ariadine Zampaulo faz da capital de Moçambique a protagonista de ‘Maputo Nakuzandza’

Paula Mermelstein

Amanhece em Maputo. Um grupo de homens embriagados, aparentemente vindo de uma noitada, observa o interior de um carro cuja porta está aberta; “tem uma gaja boa aqui, mulata”, comentam em tom zombeteiro. A seguir, um casal passa pelo carro e também observa seu interior: “ela saiu à noite sozinha, ela trajava roupa curta, não tem parceiros fixos”, são alguns de seus comentários. Por fim, outra mulher passa por ali e retira a jovem do interior do carro, encobrindo-a com um pano. O que acontece com a “gaja” a seguir, ou o que lhe aconteceu antes, não saberemos ao certo. Logo partiremos para outras cenas, outras histórias, outras portas abertas pelas quais iremos apenas espiar lampejos de narrativas da cidade de Maputo.

Não adentraremos muito mais a fundo do que esta cena nas histórias de “Maputo Nakuzandza”, de Ariadine Zampaulo; o filme passeia por narrativas de diferentes relevos dramáticos sem nunca se aprofundar ou salientar demasiadamente. Oscilando entre pequenos causos cotidianos, declamações de poemas, passeios pela cidade e performances artísticas, vislumbramos um dia em Maputo, por meio da narração da rádio Maputo Nakuzandza, que dá título ao filme e acompanha as imagens.

A noiva que fugiu de seu casamento e vaga pelas ruas – a rádio acrescenta, ainda, que o noivo está desesperado a sua procura, acreditando tratar-se de um sequestro. A mulher que encontra seu marido tomando café com outra. O turista que passeia por Maputo. O homem que corre pela cidade. Duas mulheres que performam com panos brancos em uma casa abandonada. A rádio possibilita esta estrutura heterogênea de fios soltos no filme, os quais não chega de fato a conduzir; as cenas acontecem, em geral, independentemente daquilo que é narrado pela radialista, que apenas por vezes comenta causos evidentemente representados na tela.

Como as personagens do turista, do corredor e da noiva, vagamos pela cidade sem um objetivo específico a não ser o vagar em si. A cidade é a verdadeira protagonista, e o filme não busca simplificá-la, tampouco transcendê-la. Seu olhar diante de tudo isso permanece aberto, ensaístico, regido por um certo equilíbrio neutro: há um evidente encanto por alguns cantos de Maputo, mas uma paisagem urbana trivial prevalece, a rádio anuncia saraus de literatura mas também que a cidade tem um grande índice de suicídios. Passamos sem distinções da natureza intrinsecamente documental da filmagem das ruas e lojas, à natureza performática da dança e poesia, e à sutileza dos costumes locais, sejam esses encenados para a câmera ou não.

Dentre esses discretos relevos, destacam-se alguns temas recorrentes: a colonização portuguesa, a literatura moçambicana e o casamento. O último é, provavelmente, aquele de maior saliência no filme, temos a noiva em fuga, outra que ainda organiza sua cerimônia – um ritual em curso – e a rádio comenta um assassinato de um homem por sua esposa. Em um dos fragmentos narrativos finais, vemos uma jovem (possivelmente a mesma do início do filme, quem, então, só vemos à distância) se arrumando para sair. Anoitece em Maputo.

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