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Um mundo vazio

A história de Claé e Bruô, lobo e urso antropomorfizados, agentes secretos dos reinos do Sol e da Lua

‘Perlimps’, de Alê Abreu, incorre nos maiores clichês das animações e ficções infantis

Matheus Zenom

“Perlimps”, de Alê Abreu (O menino e o mundo), apresenta a história de Claé e Bruô, lobo e urso antropomorfizados, agentes secretos dos reinos do Sol e da Lua, que atravessam florestas, nuvens e cavernas, cenários animados pelo uso de diferentes camadas, cores e texturas, em busca dos Perlimps, que devem ajudar na salvação do mundo em que vivem. Se a ênfase é maior na fascinação visual do que em seu próprio apelo narrativo, as limitações dessas composições logo se tornam também evidentes. Cada espaço se apresenta de maneira estática, visto sob uma distância similar. A “câmera” nunca avança sobre os seus elementos, nem as árvores e folhas parecem se mover com uma fluência maior, senão quando as personagens interagem com eles. Isto é compreensível, pois as limitações das possibilidades da técnica de animação usada e explorá-lo requereria mais recursos, dos quais presumimos que o filme não dispõe.

O que não se pode aceitar, entretanto, é que o filme não tome para si essas limitações para trabalhar melhor os diálogos que nos esclarecem sobre tudo neste universo. Por muito tempo permanece a rivalidade entre os dois personagens e nas falas entre eles a disputa pelo poder sobre os locais, reivindicando para seus reinos respectivos a soberania. Nada disso mobiliza a narrativa, servindo a construção do universo diegético por informações e detalhes que buscam enriquecer o universo, mas escapam ao espectador por sua verborragia. Acima disto, essas disputas não oferecem ao espectador a possibilidade de identificação, e um único momento marcará uma aproximação definitiva entre eles, resolvendo o conflito em segundos.

Enquanto isto, sua motivação permanece sobre um único elemento, repetido à exaustão: a busca dos Perlimps para salvar o mundo da destruição pelos Gigantes, que descobriremos serem os seres humanos. Jamais nos ficará suficientemente claro o que eles são. Impalpáveis, intangíveis, os Perlimps jamais aparecerão, nem terão a sua força usada pelo bem maior almejado. Do mesmo modo, as habilidades que os personagens demonstram não serão aplicadas em cenas de aventura. Para além da motivação inicial, resta pouco. A ausência dos antagonistas em cena exclui qualquer conflito que marque o desenvolvimento da narrativa. E mesmo a crítica superficial à “guerra” dos seres humanos aos animais e entre si não é capaz de refletir sobre esse universo, menos ainda estabelecer um contato significativo com a realidade.

“Perlimps” incorre nos maiores clichês das animações e ficções infantis: a tentativa insistente de forjar um universo completamente imaginário, com “criaturas mágicas”, “reinos” e tudo mais que se possa imaginar. A persistência faz passar o ponto da demonstração e apresentação, tornando tudo exibicionismo nessas personagens e nesse universo. O que poderia ser simples, resumido e eficiente, torna-se complexo, achatado e impotente. Tem-se a impressão de que tudo que está aí caberia em um curta-metragem; em 1h20, não sobra vontade de ver mais nada, muito menos de ouvir.

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