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Um pouco de história para abrir o apetite

Em Copacabana, Hotel Hilton foi point nos anos 60 do ‘cineminha’ de Harry Stone, o embaixador de Hollywood no país, à sede do Festival do Rio 2022, que exibiu vigorosa safra de filmes nacionais

Kamilla Medeiros

Pequenos desvios na rota fazem toda a diferença. Já estava programada para escrever sobre outro assunto, mas o almoço da quinta-feira anterior acabou abrindo o meu apetite para falar das histórias que nos surgem, assim, sem aviso e que nos convidam para uma escapulida a um passado de glória já perdida. A três dias do encerramento do Festival do Rio, descobri que o hotel, onde estamos hospedados, se tratava do finado Le Méridien, hoje renascido como Hilton, na tradicional Avenida Atlântica, em Copacabana. Quem me contou isso chegando na recepção do hotel foi o crítico de cinema Carlos Alberto Mattos. Tínhamos combinado de almoçar, eu estava à sua espera junto com a Aline Gomes, minha colega de quarto e também de trabalho no Talent Press Rio 2022, enquanto ele nos contava um pequeno detalhe: bem ali, embaixo de nossos narizes, o tempo todo, havia existido uma das cabines de cinema mais badaladas do Rio de Janeiro. Eram sessões de cineminha, como diziam, sobretudo, nos anos de 1960, com convites exclusivos para a elite carioca. As exibições inéditas de filmes estrangeiros incluíam a presença de grandes astros de Hollywood e festas suntuosas regadas a coquetéis. Creio que poderíamos chamar de “cineclube chique” para gente rica. Histórias que as escadas, os corredores e os quartos ainda devem guardar na lembrança. Dizem por aí que mármore tem boa memória.

Harry Stone (1924-2000) é o nome do responsável por tudo isso. Uma busca rápida na internet e a sua fama, para o bem e o para o mal, ficou evidente. Ele encarnava o próprio “diabo” do cinema brasileiro[1] por ser o representante e relações públicas na América Latina da Motion Picture Association of America (MPAA), associação das principais empresas de cinema dos Estados Unidos, como Columbia Tri-Star, MGM, Fox, Universal, Warner Bros, Buena Vista e Paramount. Glauber Rocha chegou a acusá-lo de ser um agente da CIA. Dá para imaginar a cena: Cuidado, pais de família do Brasil. Protejam  os seus filhos porque o Sr. Stone vem aí! Para enfrentar as máscaras do terror imperialista, do terror tecnológico, é preciso usar as máscaras da macumba brasileira![2] Não havia de ser nada interessante para a turma do Cinema Novo ter por perto um homem que defendia os interesses gringos. E por isso mesmo, também era conhecido como o embaixador de Hollywood no Brasil[3], tamanha era sua influência entre os círculos políticos e artísticos locais. Ter escolhido o Rio de Janeiro como base para seus negócios foi estratégico para o momento em que o cinema brasileiro se encontrava a partir dos anos 1950 com toda efervescência de nova geração de cineastas interessados em valorizar suas raízes e contradizer o que vem de fora. Difícil não lembrar do que Jean Claude Bernardet (2009) escreve no livro “Cinema brasileiro: propostas para uma história”: “Não é possível entender qualquer coisa que seja no cinema brasileiro, se não tiver sempre em mente a presença maciça e agressiva, no mercado interno, do filme estrangeiro (…)”. Adoraria saber onde exatamente aconteciam as sessões no hotel, a única pista que tenho é que devia ser em um dos salões, talvez algum do primeiro andar.

Voltando ao almoço, a caminho do restaurante, seguimos a pé reto pela Avenida Atlântica, agora já pisando no limite entre Copacabana e Leme, entramos no La Fiorentina, antigo reduto da gente das artes. Chegando lá, mais uma descoberta, e desta vez, totalmente ao sabor do acaso. Entre as paredes salpicadas de fotos de famosos, uma caixa de acrílico nos chamou a atenção. Lá dentro, a Palma de Ouro recebida pelo clássico do cinema brasileiro “O Pagador de Promessas”(1962), de Anselmo Duarte. E que, coincidentemente, é homenageado pelos seus 60 anos de lançamento na programação do resiliente Festival do Rio – a primeira edição presencial pós-pandemia -, em que o cinema nacional mostra sua força, apesar das tentativas de desmonte das políticas de fomento. Na verdade, o que encontramos foi uma réplica. A original estava dada como prisioneira no interior de São Paulo, em Salto, terra natal do diretor. É um roteiro digno de filme: segredo perdido de cofre tranca Palma de Ouro. A sentença se estendeu por quase uma década, quando, enfim, decidiram arrombar a prisão e libertá-la[4]. Debaixo da caixa, num quadro, lemos uma frase dita pelo próprio Anselmo: “Ganhar a Palma de Ouro é fácil! Difícil é agradar na Fiorentina…”.


[1] Disponível em: <https://cultura.estadao.com.br/noticias/cinema,harry-stone-o-diabo-do-cinema-brasileiro,20000908p1575>. Acesso em: 14 de outubro de 2022.

[2] Disponível em: <https://tede.pucsp.br/bitstream/handle/24244/1/Bruna%20Carolina%20de%20Oliveira%20Rodrigues.pdf>. Acesso em: 14 de outubro de 2022.

[3] Referência ao “Programa Abertura” da TV Tupi apresentado por Glauber Rocha. Disponível em: <https://youtu.be/bjPOwC7xO98>. Acesso em: 14 de outubro de 2022.

[4] Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2022/07/prefeitura-tomba-imovel-do-restaurante-la-fiorentina-no-leme.ghtml>. Acesso em: 14 de outubro de 2022.

Réplica da Palma de Ouro exibida na parede
do restaurante La Fiorentina, em Copacabana Crédito: Kamilla Medeiros
Anselmo Duarte em dois tempos com sua Palma de Ouro
Reprodução (Agência Última Hora/Veja SP e Acervo O Globo)

Uma curiosidade, na foto à esquerda, vemos Anselmo Duarte e a Palma de Ouro original com todos os dedos da mão ainda intactos, antes de o diretor deixá-la cair e amputá-la, como pode ser visto na foto da direita. A réplica no restaurante também não tem todos os dedinhos. Segue firme na parede da memória do prédio que abriga o La Fiorentina há tanto tempo e que quase veio a fechar as portas no auge da pandemia. Foi o apelo da população que impediu que isso acontecesse e, indo mais além, o imóvel hoje é tombado[5] em consideração à sua grande importância histórica e cultural, desde 1957. Um pouco do cinema brasileiro passou por ali e ontem, nós também, visitas inesperadas e famintas. Sem perceber, acabei escrevendo sobre o que mais gosto: pequenas histórias que os filmes não contam, mas que estavam ali o tempo todo. Participar de um festival tem dessas, está incluso no pacote. Entre um filme e outro, a cidade vai se mostrando, pegamos a programação e saímos a costurar os caminhos que ligam as salas de cinema.

Ontem fui dormir pensando nos fantasmas do cineminha do Sr. Stone.


[5] Disponível em: <https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2021/04/04/premio-palma-de-ouro-de-anselmo-duarte-e-encontrado-em-cofre-com-senha-perdida-apos-10-anos-em-salto.ghtml>. Acesso em: 14 de outubro de 2022.

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