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A poesia da cidade que não descansa

‘Maputo Nakurandza’ faz uma declaração de amor ao lirismo imperfeito da vida urbana

Repleto de poesia verbal e visual, ‘Maputo Nakurandza’ une personagens e questões de gênero, trabalho, amor e passado colonialista

Lucas Oliveira

Já viajei para diversos lugares com o cinema. Através das lentes e dos traços de diversos diretores e diretoras, estive em Senegal, Suécia, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Chile e em várias partes do Brasil, dentre tantas outras terras. Minha viagem da vez é para Moçambique.

Maputo Nakurandza (2022) ‒ que significa “Maputo, eu te amo”, na língua changana, falada na cidade ‒ é uma produção conjunta entre Brasil e Moçambique, dirigida pela brasileira Ariadine Zampaulo, que aqui nos leva até a capital do país africano. Somos apresentados a um panorama da vida de várias pessoas que circulam pela cidade, do amanhecer à noite de um dia como outro qualquer. Histórias comuns, sempre intermediadas pelo centro urbano que segue seu curso e pela direção e montagem, que ligam as vivências ‒ duas portas que se abrem sucessivamente, um mesmo gesto na hora do banho, entre outras conexões.

Temos um mosaico de personagens que durante 60 minutos andam para lá e para cá, em busca de algo que, parece, nem mesmo eles sabem bem o que é, como é deixado claro em um dos tantos poemas que são declamados no filme, repleto de poesia verbal e visual ‒ destaque para a performance da figura em vermelho e para o segmento das noivas no prédio. Talvez os personagens que mais exemplificam esta errância etérea sejam o jovem que corre pelas vias de Maputo, o turista que visita diversos pontos da capital (e que às vezes dá ares de documentário à história), e a noiva que vaga pela cidade. Ela, em específico, parece ser o símbolo e o índice desta incompletude que paira sobre os personagens. Não por acaso, carrega no corpo o signo inequívoco da iminência, de algo que está por vir, mas que nunca se concretiza.

O drama peculiar desta jovem, que a princípio é dada como sequestrada, é narrado pela rádio Maputo Nakurandza, que intitula o filme e me lembrou muito, de forma mais comedida, a presença radiofônica intensa em O Bandido da Luz Vermelha (Brasil, 1968), de Rogério Sganzerla. A locução da rádio atua como uma espécie de fio condutor, que une aqueles personagens e suas questões (relações de gênero, trabalho, passado colonialista), mesmo que todos estejam separados pela distância e por suas singularidades, se esbarrando ao acaso poucas vezes. Mas não só a locução cumpre esta função, de dar liga às experiências.

A própria cidade torna-se um personagem importante. E, quando digo que o quadro mostrado é intermediado pelo centro urbano, não se trata apenas de uma força de expressão. Literalmente, através da montagem, diversos planos e sons da vida cotidiana de Maputo são inseridos em meios às ações dos personagens. As roupas no varal, os pássaros voando, as luzes acesas ao anoitecer, o trânsito, a praia, os edifícios históricos, cânticos e orações islâmicas e católicas. Tudo isso está lá, e nos mostra que o mundo segue seu curso, sem descanso, seja para onde for. Afinal de contas, a cidade também tem sua poesia, e ela não necessariamente é alegre, como bem diz a estação de rádio em certo momento.

Ao final destes 60 minutos, vivemos 24 horas. Um dia na capital moderna de Moçambique. Uma declaração de amor ao lirismo imperfeito da vida urbana. Convido a todos que leem para viajarem a Maputo como eu e conhecerem a poesia cotidiana desta cidade que nunca descansa, e está sempre a flanar.

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