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Atitudes de um fotógrafo em movimento

Documentário de Marc Shaffer afirma a potência da obra do fotógrafo Eadweard Muybridge para o cinema

Aline Gomes

Trabalhos de teor biográfico geralmente se debruçam sobre o testemunho do próprio biografado e de pessoas que o conheceram. Eadweard Muybridge morreu em 1904, o que torna impossível a tarefa de recolher um relato em primeira pessoa, até mesmo entrevistar indivíduos que conviveram ou conheceram o artista. Sendo assim, realizar um filme sobre uma pessoa, cuja voz não se pode mais escutar, predispõe a desafios. A tarefa lembra uma solução habilidosa que o renomado jornalista Gay Talese encontrou para entrevistar Frank Sinatra. Na década de 1960, a Talese foi delegado fazer o perfil do cantor. No dia e hora marcados, Sinatra se recusa a dar a entrevista, alegando estar com uma forte gripe. Sem muita saída, o jornalista americano resolve entrevistar as pessoas que conviviam com o cantor. Talese conversou com todos que orbitavam o universo de Sinatra, menos com o próprio! O resultado é “Frank Sinatra Has a Cold” (1966), um perfil tão bem delineado com aspectos e nuances sobre Sinatra que dificilmente seriam revelados se a entrevista tivesse acontecido.

Marc Shaffer parece embarcar nessa estratégia. Ao entrevistar especialistas na obra e vida do artista,o documentário se propõe a atravessar um percurso semelhante ao do jornalismo literário. Shaffer caminha pelas margens, embora faça uso das tradicionais entrevistas. Ele subverte a estrutura da narrativa documental ao não se prender nas explicações puramente factuais e históricas. São apresentados pontos de vistas menos generalizados ou herméticos. A narrativa se desdobra, mesmo usando diários e cartas, há o emprego de detalhes ilustrativos e reveladores que normalmente não seriam incluídos num documentário tradicional.

Ao visitarmos um museu, há uma certa autonomia para escolher o que ver e por quanto tempo. O mesmo não ocorre no documentário, é o diretor que decide o que se deve ou não ver. De fato, numa exposição estamos sujeitos às escolhas feitas pelo curador, mas ainda assim há algum tipo de independência, o visitante possui certa liberdade para contemplar. Já a narrativa cinematográfica não consegue mimetizar a experiência do museu, o que torna o desafio de Shaffer ainda mais interessante.

A curadoria do diretor percorre caminhos comuns, exibindo os aspectos mais importantes da produção do fotógrafo, como as cenas célebres do cavalo em movimento. Mas, também traz outros temas menos conhecidos do artista britânico, como as paisagens e cenas do trabalho industrial. O filme emprega uma estratégia particular para exibir as fotos, a câmera se aproxima das imagens e realiza um passeio sobre elas. Tal recurso é capaz de revelar detalhes e destacar ângulos menos usuais.

Esse exercício recria um enquadramento sobre a fotografia. Passamos a perceber elementos da composição que seriam notados apenas por um olhar mais demorado e especializado. Por exemplo, é por esse tipo de esquema que se nota a repetição do mesmo formato de nuvens em diferentes fotos de paisagens, indicando uma manipulação da fotografia mais intensa do que se imaginava ocorrer no caso de Muybridge.

Em relação aos entrevistados, Shaffer lança mão do formato mais comum: os especialistas são posicionados no centro da tela, sentados, respondem as perguntas olhando para a câmera. Contudo, o cineasta tenta se diferenciar do usual. Na apresentação do time de comentadores, a tela é dividida geometricamente, formando uma espécie de grade em que cada quadrado é preenchido por cenas em que os especialistas se acomodam em suas cadeiras (figura 1). Essa organização lembra tanto o fundo geométrico usado em muitas das séries fotográficas, como também o arranjo que Muybridge escolheu para apresentar no papel as sequências dessas fotos (figura 2).

Além disso, durante os relatos, a câmera se desloca para apresentar diferentes ângulos dos convidados: são perfis, close-ups e planos americanos. Há um ambiente menos formal durante as entrevistas. Risadas ou comentários mais pessoais, relacionados aos eventos narrados, tornam as participações dos estudiosos descontraídas. Isso tudo confere um aspecto subjetivo, mas não menos criterioso, sob as análises apresentadas. Ao recorrerem frequentemente aos documentos históricos, nos convencemos que os depoimentos se sustentam sob uma pesquisa rigorosa que sedimentam com força os relatos biográficos.

Frame de “Exposing Eadweard Muybridge”: grade lembra fundo geométrico usado em muitas das séries fotográficas

A famosa sequência de Muybridge, “Attitudes of Animals in Motion”, de 1879, que faz parte do acervo do Metropolitan Museum of Art
Fonte: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/700109

Um dos entrevistados, o ator Gary Oldman, ganha destaque especial. Sua relação com a obra de Muybridge é de colecionador, mas fica muito claro que seu interesse ultrapassa essa posição. Ele demonstra conhecer muito bem a biografia do artista. Em entrevista, Shaffer conta que o ator tem um projeto antigo de fazer um filme de ficção sobre o fotógrafo, inclusive atuando. Oldman até já teria escrito um roteiro. Talvez esse histórico seja responsável por imprimir a sensação de que a participação do ator hollywoodiano é contaminada pelo seu interesse pessoal. Quando Oldman descreve a reação do fotógrafo por ter sido absolvido por um homicídio – ao receber o veredito, Muybrigde teria chorado, desfalecido, de forma melodramática – Oldman mimetiza a cena. Mesmo sentado na cadeira, ele grita, em seguida deixa o tronco e os braços largados, como se fosse desmaiar. A voz não é o único elemento de construção narrativa, mas também a linguagem corporal. Ali, Oldman já estava atuando, entrando no personagem, sendo Muybrigde. 

Em outro momento, o ator relata a decepção do fotógrafo ao se dar conta de que na publicação do livro que trazia os famosos estudos de movimento com o cavalo, o editor Leland Standford pouco menciona a autoria de Muybridge, subtraindo o reconhecimento pelo seu trabalho, diante da Sociedade Real Britânica, perante os pares. Para exemplificar a frustração do fotógrafo, Oldman usa um paralelo do campo do cinema: seria como perder um Oscar.

Mark Klett, um dos fotógrafos convidados para analisar as paisagens de Yosemite feitas por Muybrigde, faz uma importante afirmação. Quando nos colocamos no mesmo lugar em que o fotógrafo esteve, para enxergar o que ele viu, vemos com nosso corpo e não somente com nossos olhos; sentimos o lugar, vemos além do que está na foto, o que existe depois do recorte que a emoldurou, enxergamos o que está por detrás da imagem. Talvez seja exatamente esse exercício que Oldman realizou, ao encenar durante seus comentários, incorporando o papel de seu futuro biografado, ele criou para o espectador um instrumento que possibilita um alcance mais profundo sobre quem foi esse artista tão singular. 

Apesar do protagonismo do ator, os comentários dos outros entrevistados não se perdem no filme. É memorável o momento em que um dos descendentes da região de Tongass, no Alasca, olha para uma das imagens feitas por Muybridge dos habitantes da região no século XIX. Ressaltando o gesto de que o fotógrafo teria enviado posteriormente uma cópia da fotografia para o pequeno povoado, ele observa que existe algum parentesco com uma das pessoas fotografadas ali. Nesse momento, se estabelece uma relação de pertencimento do próprio comentarista. Há uma espécie de resgate, em que uma história marginalizada pelos discursos autorizados da historiografia tradicional, ganha memória: “também estou nessa foto, aqui está minha família”.

No que diz respeito ao formato documental, o filme tenta evitar repetir alguns trabalhos anteriores. Marc Shaffer abandona as longas narrações descritivas das fotos e dos seus processos de produção. Um formato que reconhecemos no filme Thom Andersen, de 1975: “Eadweard Muybridge, Zoopraxographer”. Há também uma tentativa de inovar ao explorar as famosas séries sobre o movimento humano. Shaffer apresenta outros aspectos, ressalta elementos cômicos, eróticos e de questões de gêneros nas composições. O diretor ainda destaca de modo cuidadoso, o caráter editorial de Muybridge na maneira de apresentar as imagens. Uma das especialistas aponta que as sequências das fotos não seguiam necessariamente uma ordem cronológica, mas sim semelhanças nas posturas, configurando uma espécie de padronização dos gestos. 

O documentário é uma apresentação muito rica da obra e da vida do fotógrafo. Mas ele também traz aspectos novos sobre Muybridge. Não gostaria de revelar detalhes, mas é importante sinalizar que o teor revolucionário da produção do artista para a história da arte é sublinhado no fim do longa-metragem. As cenas finais apresentam obras da arte contemporânea que se inspiraram em Muybrigde. Recentemente, o filme de Jordan Peele, “Nope” (2022), também faz uma citação direta aos estudos de movimento. “Revelando Eadweard Muybridge”corrobora a potência da obra desse artista tão importante para a história do cinema.

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