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Busca pela ancestralidade

O filme homenageia a Velha Guarda da Portela, escola de samba fundada em Oswaldo Cruz  que completa 100 anos em 2023

Animação ‘O Senhor do Trem’, da dupla  Aída Queiroz e César Coelho, retrata a Velha Guarda da Portela e a busca de um passado africano silenciado e enterrado

Hélio Nguane

O curta de animação “O Senhor do Trem”, de Aída Queiroz e César Coelho, é um bom pretexto para falar sobre ancestralidade e todos os tópicos a ela alicerçados. A questão que fica é: até que ponto vasculhar um passado que traça o roteiro da nossa submissão e ostracização nos eleva? Antes de entrar na análise do filme, vamos começar com uma questão básica: o que é ancestralidade? É uma perguntas simples, mas com respostas complexas. Falar das origens cura, mas também remexe feridas; é um desfile ao encontro de um bem-maior, mas também é caminhar descalço em areia lamacenta e movediça num país (Brasil) em que 54% da população é negra, como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) elucida.

Correntes do passado

Em “O Senhor do Trem”, guiada por vó Badú (Maria Salvadora), a menina Dandara conhece um pedaço do passado, através da oralidade, que é uma das fontes marcantes da historiografia africana. No entanto, para buscar referências do passado, surge um obstáculo, como encontrar, pois, o passado, que é costurado com base em métodos e técnicas. E a análise dos manuais mostra que a História que é exibida nas instituições de ensino ao longo dos séculos é repleta de correntes, omissões perpetradas por uma historiografia escrita por vencedores que criam heróis e vilões.

Como diz vó Badú, “nem todas as histórias passadas são bonitas ou encantadas e quase nunca são contadas por quem realmente viveu a parte sombria da história”. Indo ao encontro desse pensamento, Amadou-Mahtar M’Bow (2010)[i] atesta que um fenômeno que causou grandes danos ao estudo objetivo do passado africano foi o aparecimento, com o tráfico negreiro e a colonização, de estereótipos raciais criadores de desprezo e incompreensão, tão profundamente consolidados que corromperam inclusive os próprios conceitos da historiografia.

Assim, como aponta vó Badú numa das passagens da animação, para contar a história de África é preciso conhecer e reconhecer a História de quem veio antes de nós. E mundialmente já se abriu espaço para isso. Como M’Bow, antigo diretor geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), entre 1974-1987, aponta no prefácio da quinta edição do livro “História Geral de África”, é preciso combater o preconceito, pois: 

Desde que foram empregadas as noções de “brancos” e “negros”, para nomear genericamente os colonizadores, considerados superiores, e os colonizados, os africanos foram levados a lutar contra uma dupla servidão, econômica e psicológica. Marcado pela pigmentação de sua pele, transformado em uma mercadoria, entre outras, e condenado ao trabalho forçado, o africano passou a simbolizar, na consciência de seus dominadores, uma essência racial imaginária e ilusoriamente inferior àquela do negro. (M’BOW, 2010).

Ainda guiados pelo pensamento de Amadou-Mahtar M’Bow, percebemos que este processo de falsa identificação depreciou a História dos povos africanos, no espírito de muitos, rebaixando-a a uma etno-história, em cuja apreciação das realidades históricas e culturais não podia ser senão falseada. Assim, procurar as origens como base uma historiografia que reprime é caminhar ao encontro de mentiras e construções encalcadas de preconceitos e clichês racistas.

No meio disso, como aponta vó Badú, os nossos ancestrais ainda têm algo a nos dizer. “É preciso ouvi-los e entender a nossa vida. Mas às vezes, é muito difícil reconhecer o nosso passado, principalmente se foi silenciado ou enterrado”, diz a personagem numa das passagens do filme de animação.

Neste sentido, como explica M’Bow (2010), na busca de ancestralidade é necessário trabalhar para a construção de uma história construída por historiadores preocupados em abordar o passado que liga o Brasil e a África com mais rigor, objetividade e abertura de espírito, empregando – obviamente com as devidas precauções – fontes africanas originais.

Vó Badú reforça este pensamento num dos trechos do filme indicando que “quem se apropria da história dos outros, não reconhece a dor que há nela”

O filme e a busca sem correntes

O filme que nos propomos a analisar busca referências do passado para a construção da identidade. Por exemplo, Dandara, guiada pela avó, conhece a história da escravidão, que desmembrou famílias, que viram os seus transportados em navios negreiros para longe de suas origens. A animação, criada com o intuito de homenagear a Velha Guarda da Portela, mostra as consequências nefastas de desconhecer as origens. Na trama, a menina Dandara depois da morte da avó fica sem rumo e aos poucos desaparece e para ganhar forma tem de saber mais sobre os seus ancestrais.

Sendo que este pensamento vai ao encontro do ponto de vista de Wilson (1993)[ii], que exalta a importância de conhecermos a nossa História ancestral, a História do negro, contada por eles. Pois quando o passado é esquecido, há consequências para o entendimento do presente e uma consequente dificuldade de projeções para o futuro. A busca pela ancestralidade está presente no nome da protagonista: Dandara, que é uma clara referencia à mulher de Zumbi dos Palmares, guerreira negra do período colonial do Brasil, que após ser presa, cometeu suicídio se jogando de uma pedreira ao abismo para não retornar à condição de escrava.

Nesta busca de ancestralidade, a animação traz as memórias da resistência, mostrando, por exemplo, os caminhos que os escravos trilhavam, a rota da Pequena África, no Rio de Janeiro. No roteiro, a cereja no topo do bolo é a visita ao Instituto Pretos Novos. No local, a menina encontra dados históricos processados, sistematizados, que mostram 350 anos de uma prática (escravatura) que tem consequências sociais que perduraram por séculos.

O curta caminha pelo passado para reconstruir as origens do samba.  Lopes (2005)[iii] indica que foram os bantus, da região Congo-Angola, os semeadores, no Brasil, de formas musicais, padrões rítmicos, modulações vocais, instrumentos como a cuíca, o caxixi, o berimbau e modos de dançar ancorados na cintura. Considera-se Bahia e Rio de Janeiro como espaços de criação. Mas suas ramificações contaram com a presença de músicos de diferentes regiões deste país, como São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e outros estados, que interferiram na formação do samba nas primeiras décadas do século XX no Rio de Janeiro

Depois de passear por esse passado distante, a animação celebra ainda outros grandes nomes do samba como Monarco, líder e o mais antigo integrante da Velha Guarda, Tia Surica, que desfila pela Portela desde os 4 anos, e Marquinhos do Pandeiro.

As músicas escolhidas no filme conduzem à África. O som da percussão é uma clara referência da tradição do continente. A cadência dos batuques em alguns momentos recorda a trilha sonora de cerimônias tradicionais. Depois do percurso pelo passado, ouvimos melodias do presente, um tema feito pela Velha Guarda especialmente para o curta, intitulada “Juras de Amor”, escrita por Evandro Lima e Serginho Procópio. A animação tem uma narrativa convencional, pensando na sua exibição para um público infantil e nas escolas públicas. Percebe-se que os autores estavam mais preocupados em passar uma informação clara.

O futuro e as correntes de porcelana

Ao ver “O Senhor do Trem” recordo de um passado que nos oprime. Nossos ancestrais foram escravizados por séculos, transportados como mercadoria, sua força sustentou a economia das grandes potências escravistas: é facto. Em termos culturais, buscar o passado faz-nos entender a ligação às origens: uma hipótese. No entanto, passado que é usado para a recuperação da identidade, também pode ser utilizado para a demarcação social, para a legitimação de posições no status quo e a legitimação do célebre “foi assim por séculos, será sempre assim”.

E como usar o resgate da ancestralidade para o bem? Não tenho respostas. Mas assistindo à animação fica claro que é preciso construir mais referências, além do Quilombo dos Palmares, além da Velha Guarda. Neste trem, é preciso estarmos claros do caminho, pois o passado sombrio pode conformar-nos. Assim, é preciso reconstruir, sem usar o ódio e todas as armas que no passado foram usadas para silenciar a nossa voz. Para a consolidação deste pensamento cito Paulo da Portela (Rodrigo França) que no filme aparece como uma entidade que guia e mostra o caminho para a luz. Numa das passagens, mostra que a luta não é individual, é preciso “resistir juntos, cantar num ritmo, (…) se encontraram e se reconhecem”, conclui.


[i] M’Bow, M. Amadou – Mahtar. Prefácio. In: OGOT, Bethwell Allan (editor). História Geral

da África (Volume V): África do século XVI ao XVIII. Brasília, UNESCO, 2010.

[ii] Citado por Malafaia, Evelyn Dias Siqueira. 2019. Memória Ancestral: uma potência para reconstrução de nossa história. III Copene Sudeste: Vidas negras importam. 2019.

[iii] LOPES, Nei. Partido-alto: samba de bamba. Rio de Janeiro: Pallas, 2005.

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