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Uma animação terrivelmente brasileira

A brincadeira dos agentes Claé e Bruô corre em paralelo com a destruição da natureza

Em ‘Perlimps’, Alê Abreu nos lembra que, mesmo em momentos tenebrosos, só se perde quando desistimos

Kamilla Medeiros

Impossível assistir Perlimps e não pensar no Brasil. O filme poderia ser em qualquer lugar do mundo onde houvesse injustiças, mas encontrar com Claé, um lobo que mais parece uma raposa e Bruô, um urso com cauda de leão ou poderíamos chamar de uma espécie de quimera, enquanto acontece uma das eleições mais importantes de todos os tempos, faz do filme, terrivelmente, brasileiro. Florestas queimadas, barragens que inundam paisagens cheias de vida, desastres e crimes que são suscitados o tempo todo pela dupla de personagens que nos guiam para uma aventura fantástica.

Acompanhamos duas crianças com origens e histórias diferentes, uma solar e a outra lunar, em suas pequenas arengas no caminho para uma missão secreta. Desde Garoto Cósmico (2007), seu primeiro longa-metragem, Alê Abreu retrata suas personagens em mundos fantásticos, caleidoscópicos e sempre muito humanizados, ou mesmo que isso signifique a busca por uma humanidade latente. Apesar de alguns momentos puxarem na lembrança da infância as peripécias das personagens de Ziraldo para a série da TV Cultura “A Turma do Pererê”, cujas criaturas como Galileu (onça), Geraldinho (coelho), Moacir (jabuti) e Alan (macaco) encarnam desventuras pela floresta.

A trama também puxa para um outro lado, em que a brincadeira dos pequenos agentes do reino do Sol (Claé) e da Lua (Bruô) corre em paralelo com um contexto de destruição da natureza ao seu redor. Ambos tentam afugentar uma inundação no bosque encantado, chamada por eles de a grande onda, essa arquitetada pelos Gigantes, os adultos ou melhor, as pessoas que perdem sua essência humana e desatam a atacar o que deveriam proteger para coexistir.

Nesse sentido, Perlimps, é um grande eclipse, com o encontro entre essa dupla cósmica, rendendo-nos uma das mais belas cenas do filme, senão a mais tocante. Enquanto que em “O Menino e o Mundo” (2013), seu longa anterior, o protagonista sai em busca por seus afetos familiares e de si mesmo – ao mesmo tempo que nos conta uma outra história de segregação social, capitalismo desenfreado que traz destruição do planeta e das vidas que resistem e encontram alegria no coletivo, na festa, na música e no abraço -; Perlimps é um pouco mais agridoce: os caminhos que cada um dos meninos toma não os leva ao final feliz.

Sair do jogo da brincadeira é também tomar o susto da realidade que se precisa enfrentar. Em contraste com o filme anterior que apostava num minimalismo e brancura salpicada de cores, o que assistimos agora é a uma aposta nas cores vivas se derramando por todos os planos. Idem para a trilha sonora envolvente de O Grivo, grupo composto pela dupla Marcos Moreira e Nelson Soares, conhecidos por suas engenhocas musicais e dedicadas a experimentar os sons de qualquer objeto, basta que ressoe no ar. Perlimps termina nos lembrando que mesmo em momentos tenebrosos e de abraços partidos, o que cada um leva consigo do outro é uma fagulha de esperança. Só se morre quando se é esquecido. E só se perde quando desistimos.

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